Filipe Alves

Cogestão: boa na teoria, difícil na prática

A dimensão das empresas nacionais é um dos principais obstáculos à adoção da cogestão em Portugal.

A TAP tem estado sob os holofotes devido a um problema que se poderia explicar como sendo provocado por má governança corporativa. O ministro dava instruções por WhatsApp, o secretário de Estado enviava emails a pedir para alterar os horários de voos, o adjunto falava quase diariamente com a CEO e esta última pediu o afastamento de uma colega de administração, sem que o processo tenha sido conduzido da forma devida.

A adensar a trama, o Estado e a CEO assinaram um contrato que não chegou a ser ratificado pelos órgãos próprios da companhia e o Governo acabaria por demitir a senhora em direto nas televisões, procurando depois fundamentar a decisão à posteriori, num processo rocambolesco cujo desfecho ainda aguardamos.

Em suma, a TAP teve um problema de governance que foi causado pelas pessoas que desempenhavam as funções de maior responsabilidade na empresa e por responsáveis políticos que tutelavam a companhia. Não foi provocado pelos tantas vezes criticados trabalhadores da TAP, nem pelo representante que estes últimos têm na administração, João Duarte, num caso raro de cogestão em Portugal.

A cogestão consiste na presença de representantes dos trabalhadores nos órgãos de governo das empresas e foi o tema de uma interessante conversa que a Ordem dos Economistas promoveu no passado dia 3 de maio, com o JE como media partner. Na Alemanha é frequente e os seus defensores apontam como vantagens o facto de os representantes dos trabalhadores terem uma visão de longo prazo para as empresas, ao contrário de muitos gestores profissionais que as encaram como apenas mais uma etapa na sua carreira.

Outras vantagens serão uma maior motivação e um compromisso mais sólido por parte dos trabalhadores para que se atinjam os objetivos, melhorando a produtividade e permitindo às empresas enfrentarem melhor os momentos de crise, porque os trabalhadores são chamados a fazer parte da solução. Não por acaso, a cogestão é um dos modelos que têm sido apontados como caminhos possíveis para organizações que queiram destacar-se pelas boas práticas no terceiro pilar dos critérios ESG, que diz respeito à boa governança.

Porém, a cogestão é um modelo que funciona bem sobretudo nas grandes empresas e a nossa realidade não é semelhante à da Alemanha. O tecido empresarial português é composto sobretudo por milhares de micro e pequenas e médias empresas, muitas delas de cariz familiar, onde a cogestão seria de muito difícil implementação. E nos casos onde existe dimensão para tal, será necessário que que a presença dos trabalhadores no conselho de administração não seja encarada como uma extensão da luta sindical.

Os trabalhadores que forem eleitos para a administração estarão neste órgão com a missão de defender o que for melhor para a empresa, agindo em representação de uma parte importante dos seus stakeholders. Em suma, o caminho da cogestão não é fácil e implica um processo de aprendizagem e até de mudança de mentalidades, mas numa altura em que a boa governance é encarada como decisiva para o crescimento das empresas, valerá a pena encarar este modelo de forma séria.

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