CFP alerta para otimismo com crescimento para 2026 assente em dinâmica “difícil” do investimento

A concretizar-se a projeção do Ministério das Finanças para o investimento, seria o ano de maior aceleração desta componente do PIB desde 2000 - uma possibilidade agravada pela incerteza criada pelo conflito no Médio Oriente, tal como a dinâmica de preços, onde o Governo também se mostra otimista.

CFP alerta para otimismo com crescimento para 2026 assente em dinâmica “difícil” do investimento
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As projeções macroeconómicas do Governo para este ano obrigam a alguma prudência, aconselha o Conselho de Finanças Públicas (CFP), que aponta a componentes como o investimento, procura externa e preços como algumas das rubricas onde o otimismo aparenta superar as restantes instituições de referência. Como tal, a própria projeção para o crescimento este ano, de 2%, também denota algum otimismo, embora a instituição liderada por Nazaré da Costa Cabral a considere “plausível”.

No ‘Parecer relativo ao Relatório Anual de Progresso 2026’ publicado esta segunda-feira, o CFP debruça-se sobre o cenário macroeconómico projetado pelo Ministério das Finanças para este ano, alertando para expectativas em rubricas específicas como o investimento e os preços para pedir alguma prudência ao Governo.

No que respeita ao investimento, o CFP alerta para a “difícil concretização” da projeção atual, que passa por uma subida acima de 50% na componente pública. Em detalhe, o Governo aposta agora num crescimento de 5,6% do investimento agregado, com uma forte revisão em alta do lado público (de 6,8% para 55% de crescimento), enquanto o privado foi cortado.

“De acordo com esclarecimentos do Ministério das Finanças, a revisão significativa da projeção de crescimento do investimento público tem subjacente a previsão de uma execução integral do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) durante o ano”, explica o documento.

No entanto, estes valores contrastam com a expectativa das instituições nacionais e internacionais de referência, cuja média para esta rubrica fica pelos 4,1%. Mais: a materializar-se o cenário previsto pelo Governo, será o crescimento mais rápido do investimento em Portugal desde o ano 2000.

A agravar a situação, a tensão geopolítica gerada pelos ataques dos EUA e Israel ao Irão tem levado a uma revisão em baixa generalizada das projeções de investimento para 2026, face à incerteza criada e ao rombo nos mercados.

Também do lado dos preços a projeção governamental de 2,5% para o índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC), a referência para as instituições europeias, contrasta com as restantes organizações. A média das projeções aponta para 2,9%, ou seja, substancialmente acima da previsão das Finanças, pelo que o CFP vê uma “elevada probabilidade de uma evolução superior à apresentada”.

“Em particular, tendo em conta a aceleração do preço dos bens energéticos – de uma variação homóloga de -2,4% em fevereiro para 6,4% em março – e a resposta estimada na análise, o efeito de contágio à componente alimentar e subjacente da inflação contribui por si só para um aumento da inflação em 0,5 p.p. nos 12 meses após o choque”, ilustra o documento.

Ainda assim, a combinação de projeções do Governo de um deflator do PIB abaixo do consenso das restantes organizações e um crescimento real acima do esperado pelas mesmas instituições “resulta numa projeção para o PIB nominal globalmente alinhada” com o consenso, completa o CFP.

Reprimenda de Bruxelas evitada

O Conselho olha ainda para a dinâmica da despesa líquida, o indicador de referência nas novas regras orçamentais europeias, não vendo aqui bases para a abertura de um procedimento por défice excessivo, apesar de se verificar um desvio em relação ao referencial.

“Em termos cumulativos, tomando como referência o ano‑base de 2023, o CFP apura que a despesa líquida aumentou 19% em 2025, ultrapassando a taxa máxima de crescimento cumulativa de 17,4 % acordada com o Conselho da UE”, lê-se no documento. Ainda assim, “este excesso traduz-se num desvio acumulado de 0,5% do PIB, inferior ao limiar máximo acumulado de 0,6% do PIB”, pelo que Portugal deve ficar de fora das reprimendas de Bruxelas.

No entanto, caso a realidade contrarie as projeções e o cenário acabe por ser mais negativo do que se espera, levando a um desvio cumulativo superior a 0,6% do PIB, “apenas a manutenção de um saldo orçamental positivo ou próximo do equilíbrio exclui automaticamente a abertura de um mecanismo que pode dar origem a um procedimento relativo aos défices excessivos”.

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