Hampi é uma maravilha de afloramentos na paisagem, granitos naturais entre uma abundância estonteante de templos hindus, tantos como só uma capital de império podia ter, mas que, no seu esplendor, se viu destroçada por uma coligação de cinco sultões do Decão, a Norte. Em 1565, a batalha de Talikota faz Hampi parecer uma Pompeia da Índia.
Ainda antes da destruição, Domingo Paes, um português vindo de Goa, visitou a cidade e deixou uma “Crónica dos Reis de Bisnaga” (deveria ser Vijayanagara, mas saiu-lhe assim), manuscrito encontrado apenas nos finais do século XIX. Comparou-a a Roma, tal era a grandiosidade.
No templo de Vitalla, num prodígio difícil de explicar, colunas maciças de granito libertam, se reverberadas, o som distinto de notas musicais. Parece que o segredo passa pela densidade da pedra. Outras centenas de colunas esculpem em baixo-relevo as poses que, ainda hoje, bailarinas de Bharatanatyam dançam. Fica a ideia de que música e dança, mais do que gravadas na pedra, a gravaram: a dureza mineral convertida em fluidez rítmica e espiritual.
Diante de outro conjunto de ruínas, uma árvore centenária exibe um tronco tão esculpido como a pedra dos templos, mas está florida e liberta uma fragrância que é a suavidade mais intensa que se pode cheirar. A árvore vale por um templo e, perguntando em volta, descobre-se que é uma frangipani, originária da América tropical e levada para a Índia, imagine-se, pelos portugueses.
Ao longe, destaca-se o relevo de uma colina e, no cimo, um templo que só se alcança subindo mais de 500 degraus a pé. Teria de ficar para a manhã do dia seguinte, antes da canícula. Naquela colina terá nascido Lorde Hanuman, o querido deus macaco.
Cá em baixo, os arrozais estendem tons verdes à volta do rio Tungabhadra. O calor pedia um mergulho, na margem encontram-se umas barcas redondas, que mais parecem cestas gigantes, atracção turística, e que acabam inevitavelmente a girar até fazer rir.
Negociado o passeio pela metade do preço, um homem ri-se do regateio e acaba a rir connosco pelo prazer de nadar. Parecia um pequeno deus do rio. A meio do leito, submerso, está Nandi, o touro de Shiva. O homem do riso ensina-nos a encontrar a massa daquele corpo, a tacteá-lo à procura dos olhos, boca, patas, dorso, desgastados por 600 anos de corrente, mas muito bem conservado do lado jusante. Pagámos pelo passeio e ganhámos por prémio o melhor. À saída, um cartaz avisa: crocodilos. Ele ri-se outra vez. O aviso é para dissuadir incautos. Acreditamos e despedimo-nos com mais uma selfie, sob o sol de Hampi.