Organização de Xangai conclui cimeira com críticas a ataques ao Irão e pedidos de multipolaridade

O bloco emitiu uma declaração conjunta na qual garantiu um reforço da cooperação nas áreas económicas, de segurança e tecnológica, deixando ainda reparos aos EUA e aos seus aliados, mas algumas discórdias entre rivais ficaram visíveis no encontro de Bishkek.

Organização de Xangai conclui cimeira com críticas a ataques ao Irão e pedidos de multipolaridade
epa12341819 Indian Prime Minister Narendra Modi (C) talks with Russian President Vladimir Putin (L) and Chinese President Xi Jinping (R) ahead of the Shanghai Cooperation Organization (SCO) Summit 2025 at the Meijiang Convention and Exhibition Centre in Tianjin, China, 01 September 2025. The Shanghai Cooperation Organization (SCO) Summit 2025 is held in Tianjin on 31 August and 01 September. EPA/SUO TAKEKUMA / POOL

Enquanto nos EUA os G20 reuniam com a presença incómoda do ministro das Finanças russo, a capital do Quirguistão, Bishkek, viu os países da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) assinar uma série de declarações a condenar as ações dos rivais ocidentais no Médio Oriente e a garantirem um aprofundamento das ligações económicas e energéticas, isto apesar de alguma tensão entre países com interesses distintos e alianças precárias no seio da instituição.

A cimeira de dois dias acabou nesta terça-feira com uma declaração conjunta dos dez Estados-membros do bloco que representa 43% da população mundial e pretende sinalizar uma alternativa à hegemonia ocidental. A Declaração de Bishkek fala num mundo multipolar e pede reformas à forma global de governar que permitam uma maior representatividade das nações, além de garantir que a organização irá continuar a aprofundar relações económicas e securitárias, incluindo na energia.

Perante os conflitos na Ucrânia, em que a Rússia se vê envolvida há quatro anos e meio numa invasão custosa a vários níveis, e no Irão, em que Teerão e Washington continuam sem fim à vista para as hostilidades que têm feito disparar o preço do petróleo e inúmeras outras matérias-primas, o foco do encontro esteve precisamente nas perturbações globais que têm resultado daqui.

Na declaração, os líderes dos países que compõem a OCX reforçam que continuarão a trabalhar para implementarem a Estratégia de Desenvolvimento Económico da instituição até 2030, aprofundando a cooperação económica e financeira. Isto inclui também a Estratégia de Cooperação Energética, sobretudo dada a disrupção atual nos mercados energéticos.

A OCX condenou os ataques norte-americanos no Irão, que “violam os princípios e normas da lei internacional”, reforçando o compromisso com “a soberania e integridade territorial da República Islâmica do Irão”, bem como as ações de Israel na região.

No entanto, num momento inesperado, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi dirigiu-se diretamente a Vladimir Putin pedindo que acabasse com a guerra na Ucrânia.

“Temos de passar de uma guerra infinita para o fim da guerra, para o fim das hostilidades”, afirmou.

Rivalidades internas

Apesar da declaração unida, esta troca expôs algumas das tensões internas na organização, que reúne rivais como a Índia e China ou indianos e paquistaneses. Ainda assim, o presidente chinês Xi Jinping exortou o papel da OCX como plataforma internacional em termos de segurança e economia global, propondo um plano de quatro pontos para avançar com a implementação da Nova Rota da Seda na região.

Segundo a agência estatal chinesa, Xi pediu à organização que se concentrasse nas questões de segurança primeiro, de forma a fomentar mais investimento e desenvolvimento económico.

Nos encontros bilaterais à porta fechada, o cenário foi, contudo, distinto. Putin e Xi ter-se-ão reunido para discutir um pipeline de gás natural a ligar a Sibéria à China e que Moscovo precisará com urgência, dada a degradação da sua infraestrutura e o peso das sanções, mas não terá havido avanços nas negociações.

Composta por dez Estados-membros (Bielorrússia, China, Índia, Irão, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão), a OCX tem ainda uma série de países com estatuto de observador, como a Turquia. Em Bishkek, o presidente Recep Erdogan não perdeu a oportunidade para também elogiar a maior multipolaridade no palco internacional nos últimos anos.

Também o presidente arménio e o primeiro-ministro azeri, outros membros convidados, tiveram negociações para a paz no Cáucaso, embora deixando elogios às iniciativas de paz de Trump, em mais um momento que expõe as discórdias e visões opostas na organização.

A presidência rotativa da OCX passa agora para o Paquistão, que realizará a cimeira do próximo ano em Islamabad.

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