Ricardo Mendes Ribeiro, Grupo Programático para a Energia do CDS-PP

Temos energia?

Uma primeira prioridade para a energia em Portugal deverá ser o combate ao desperdício, promovendo a optimização e a eficiência nos equipamentos assim como dos edifícios e o consumo energético em geral.

Portugal tem sido confrontado com uma escalada de preços nos mercados de energia desde o segundo semestre de 2021. A escalada de preços foi agravada pelo recente conflito na Ucrânia e pode ser ainda piorada pela instabilidade que agora se faz sentir no Médio Oriente.

O nível de desenvolvimento de um país costumava ser medido pela quantidade de energia que consumia. Actualmente, e perante esta incerteza geopolítica, faz mais sentido medir o nível de desenvolvimento pelo que se consegue produzir com a mesma quantidade de energia.

A primeira definição envolve a força bruta: não importa se há desperdício, o que interessa é existir muita energia barata para se poder gastar à vontade. A segunda abordagem implica um verdadeiro avanço tecnológico. A primeira abordagem, é como regar com uma mangueira, a segunda é como regar gota a gota.

Portanto, uma primeira prioridade para a energia em Portugal deverá ser o combate ao desperdício, promovendo a optimização e a eficiência nos equipamentos assim como dos edifícios e o consumo energético em geral. Para isso, é necessário investimento e campanhas de sensibilização.

Um segundo aspecto é que os recursos energéticos são fundamentais e, por isso, não podem estar assentes em redes de distribuição frágeis e voláteis. Portugal deve procurar a autonomia energética, e isso implica criar alternativas às importações de hidrocarbonetos.

Portugal tem condições de a prazo produzir toda a energia que necessita de muitas formas. Prova disso foi o inverno passado, em que por algumas vezes fomos auto-suficientes e com os preços de produção de electricidade mais baixos da Europa.

Demonstramos que dispomos das bases e dos recursos para alcançar a autonomia energética, mas é algo que se deve construir com serenidade e constância, sem cair na precipitação de eliminar recursos antes de termos com que os substituir, como este Governo fez ao fechar as centrais a carvão antes de termos produção de electricidade suficiente por outros meios. As razões do Governo foram ideológicas e de propaganda política, mas não deve ser esse o motor das decisões estratégicas na área da energia, e esta decisão arbitrária traduziu-se em custos sérios para o país.

Na mesma linha de segurança energética, seria ideal que cada casa, cada bairro ou aldeia ou parque industrial, cada vila ou cidade fosse energeticamente independente.

Idealmente, cada uma dessas entidades produziria a energia suficiente para as próprias necessidades, sendo as flutuações de produção e consumo absorvidas pela comunidade imediatamente vizinha em primeira instância, e por sistemas de armazenamento de energia.

Seria algo no sentido das já existentes comunidades de energia, mas mais generalizado e flexível. Isto tornaria as comunidades mais resilientes a catástrofes naturais ou ataques terroristas que podem desactivar fontes de energia centralizadas.

Hoje, com a digitalização da infraestrutura energética, aliada a sistemas de inteligência artificial, é perfeitamente possível realizar esse ideal.

No entanto, tem de ser um projecto pensado para ser executado ao longo de décadas.

A aposta na independência energética tem de ser acompanhada pela aposta no armazenamento de energia, tanto em instalações pequenas (locais) como grandes (sistemas de bombagem hídrica nas barragens em que for possível, por exemplo)

Tudo isto implica um quadro regulatório flexível, que elimine barreiras à introdução de novos componentes energéticos no sistema de distribuição e armazenamento.

Viabilizar a criatividade neste campo passa pela inovação e criação de tecnologia própria e um reforço nas infraestruturas de distribuição e transformação.

Daí a importância de fomentar a investigação e desenvolvimento nas diversas formas de produção e armazenamento de energia, bem como a participação em projectos internacionais de investigação e desenvolvimento de tecnologias que promovam a eficiência do sistema energético nacional.

Portugal tem imensas possibilidades no campo da produção e armazenamento da energia; temos as fontes, as condições e o conhecimento científico – resta-nos aproveitá-los.Infelizmente, não se vê no actual Governo nenhuma estratégia nem vontade para implementar medidas de fundo no sentido aqui proposto, e isso vai-se reflectir num custo económico e em oportunidades perdidas para Portugal.

Este artigo é escrito em co-autoria com Vítor Vicente e Alexandre da Silva Teixeira, do Grupo Programático para a Energia do CDS-PP, segundo a antiga ortografia.

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