Luís Osório, Consultor

O PS só tem uma solução: viabilizar o Orçamento de Estado

Em cada cinco portugueses que votaram, quatro não escolheram o Chega. Há perigos evidentes no caminho, mas não há cura possível se os democratas tentarem gritar mais do que eles.

António Filipe fez o que deveria ser comum num parlamentar experiente. Naquelas menos de 48 horas em que presidiu à Assembleia da República foi institucional sem perder o sentido de humor, foi equilibrado sem abdicar de ser quem é, foi simpático sem deixar de ser firme. Ver um comunista a pôr ordem na sala foi uma ironia dos deuses, mesmo que sejam deuses materialistas e dialéticos… um delicioso paradoxo. Vivemos tempos tão estranhos que o normal passa por assombroso. Com tantos gritos, infantilidades, mentiras e imaturidade, ver alguém a fazer o que deve ser feito é quase uma extravagância. Adiante.

Depois da burlesca eleição do presidente da Assembleia da República, com uma amplamente discutida falsa partida de Luís Montenegro, há um dado positivo e que não era claro antes de Ventura ter enganado o PSD e de o PSD ter aceitado falar com Ventura: os dados estão lançados e passaram a ser claros. O governo da AD, para mal dos pecados dos muitos que preferiam outra solução, só pode viabilizar o seu primeiro Orçamento de Estado com o apoio do Partido Socialista. É a sua única opção de sobrevivência.

Pedro Nuno Santos já afirmou que não é uma hipótese que esteja em cima da mesa. Que Montenegro não poderá contar com a sua muleta, sob pena de o PS deixar ao Chega a liderança da oposição, o que se teme possa ser fatal para a democracia. A tese faz sentido, mas não concordo com ela. Esta é uma nova era e os ventos sopram forte numa direção nunca testada, não há diques preparados ou soluções milagrosas. Nessa medida, exigem-se novas respostas.

Em cada cinco portugueses que votaram, quatro não escolheram o Chega. Há perigos evidentes no caminho, a começar pelo crescimento de um projeto político que vive do ressentimento e da velha ideia de que não pode ficar pedra sobre pedra. A democracia está doente, mas não há cura possível se os democratas tentarem gritar mais do que eles. Os insultos não podem ser respondidos com insultos. A má-educação tem de ser contrariada com boa educação e urbanidade. A falta de sentido institucional não pode travada com democratas a quererem “acarinhar” os arruaceiros.

A AD ganhou as eleições. O PS perdeu-as e a soma dos votos à esquerda não lhe permitiu uma maioria parlamentar. É justo que Pedro Nuno Santos, em nome da democracia e do respeito pelo voto popular, aceite dar o benefício da dúvida a Luís Montenegro. Ninguém poderá exigir ao PS que viabilize dois orçamentos de Estado, mas é incompreensível se não aceitar viabilizar um único.

Deixar ao PSD a hipótese de governar dois anos parece-me justo e até menos arriscado do que fazer cair o governo ao fim de alguns meses numa coligação negativa com o Chega. Seria inconcebível e um erro político que seria pago com língua de palmo. Um erro colossal mesmo que ganhasse as próximas eleições. Porque será impossível de as ganhar com maioria à esquerda, a única coisa que ganharia era a mudança na liderança do PSD para alguém que aceitasse governar com André Ventura.

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