Kâmia Madeira, Licenciada em História pela Universidade de Coimbra

Nós por cá…

Não podemos aceitar que continue em vigor a narrativa do presidente omnipresente e omnipotente, pois isto leva-nos a questionar qual o papel de ministros, secretários de Estado e toda a sua equipa de auxiliares.

Na última crónica falei-vos da emigração e do que poderão ser as possíveis razões para que exista um êxodo de profissionais, porém, creio ser importante retratar o que se passa por cá. Actualmente, os discursos  estão assentes na diversificação e diplomacia económica, há um maior controlo dos preços praticados e todo um olhar externo.

Exceptuando o período da Covid-19, nos últimos tempos, houve uma circulação de equipamentos de construção, províncias a sul do país onde passou a existir dificuldade de hospedagem, pois há uma maior procura por parte de investidores, e na capital locais de restauração e divertimento, onde voltamos a encontrar diversidade de nacionalidades. Mas será este um motivo para afirmar que existe um maior investimento estrangeiro?

As percepções que muitos poderão considerar empíricas servirão para afirmar que é ilusória a narrativa de que o país está parado no tempo e espaço.

Creio que os profissionais que hoje trocam os seus países por Angola são mais especializados, gestores e aceitam o desafio de implementar de raiz novos projectos, encontram colaboradores mais capacitados, mas não deixam de ter que recorrer à “criatividade” para ultrapassar questões que ainda retrocedem os negócios como os custos associados à água ou energia.

Bem sei que os críticos estão sempre à procura de argumentos para “bater no ceguinho” e dirão que a vinda de expatriados é, também, um dos motivos para a fuga de nacionais, porém, volto a indagar o que fazemos nós para mudar? Que tipo de pressão e escrutínio exercemos? A quem responsabilizamos?

Não podemos aceitar que continue em vigor a narrativa do presidente omnipresente e omnipotente, pois isto leva-nos a questionar qual o papel de ministros, secretários de Estado e toda a sua equipa de auxiliares. É verdade que temos observado nas últimas semanas um movimento de maior comunicação por parte dos decisores dos diferentes sectores económicos, com inúmeros fóruns e conferências, mas é necessário comunicar mais e melhor, e ir ao encontro das inquietações do cidadão comum.

Acredito que muitas das vezes existe um olhar enviesado, pois não há espaço para cinzentos, e isso faz com que nos entrincheiremos nas posturas do “se não concordas comigo é porque estás contra mim”, dificultando um olhar aberto e conciliador que visa a resolução de problemas.

Talvez se nos preocuparmos mais a descobrir o que nos une, consigamos construir um caminho diferente, em que possamos aceitar que todos são válidos independentemente do seu país de origem.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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