Francisco Miranda Rodrigues, Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses

A guerra… subversiva

As pessoas mais jovens já não estão disponíveis para tolerar maus-tratos no trabalho e procuram organizações que respeitam e cuidam as pessoas, começando por aquelas que nelas trabalham.

Fez um ano que fomos surpreendidos por uma guerra na Europa. A maior parte de nós, naturalmente, não estava preparado. Quando a guerra nos irrompeu em imagens pela casa dentro foi sentida por muitos como uma agressão a nós mesmos.

Estávamos a tentar normalizar ou tornar previsível as nossas vidas pandémicas e eis senão quando a incerteza global nos bate à porta. De incerteza e medo estávamos nós cheios. Havia tempo que um vírus desconhecido nos tinha tirado sonhos, experiências, convívios, aprendizagens, empregos, saúde ou vidas.

A guerra trouxe outro tipo de ameaça existencial. Mais visível. Mais palpável. Mais estrondosa. Para nós, que estamos a milhares de quilómetros de distância, ela começou a ganhar contornos mais próximos com a chegada dos primeiros refugiados. Voltava-se a sentir uma mobilização social para os outros, para articular respostas, para o contributo cívico e cooperação.

A seguir, veio o aumento dos custos energéticos, dos alimentos, a inflacção e os juros. A seguir, mas não total e necessariamente causado pela guerra. A pandemia já os tinha semeado. Muitas pessoas começaram a ter dificuldades para cumprir as suas obrigações financeiras, para comprar alguns bens essenciais e a grande maioria teve de apertar o cinto.

Neste contexto, as organizações têm ainda mais desafios para a gestão das pessoas que nelas trabalham. O factor humano torna-se cada vez mais diferenciador e decisivo, mesmo em funções outrora menos valorizadas. A sua ligação à produtividade é umbilical e cada vez mais reconhecida, nomeadamente quanto à capacidade para vincular talentos. Para isso, proporcionar condições para o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional e, de uma forma geral para o bem-estar no local de trabalho, é cada vez mais uma prioridade.

As pessoas mais jovens já não estão disponíveis para tolerar maus-tratos no trabalho e procuram organizações que respeitam e cuidam as pessoas, começando por aquelas que nelas trabalham. Ao aumentarem os factores que no contexto socioeconómico da organização aumentam os riscos para o bem-estar e saúde das pessoas fica ainda mais reforçada a necessidade de as organizações melhorarem as suas práticas de gestão e de liderança.

Muitas vezes quando se fala de stresse e de outros problemas psicológicos e o seu impacto no local de trabalho pensa-se em grandes problemas: depressão e ansiedade enquanto perturbações mentais comuns ou mesmo no stresse em si ou no burnout, como resultado de menor resiliência ou de vulnerabilidades prévias.

Por isso, há autores que alertam para os pequenos stressores e o resultado acumulado dos seus impactos. Alguns designam-nos como microstressores, como expressão diferenciadora de algo menos visível, menos reconhecidos do que os stressores normais e, por isso, sujeitos a irem fazendo devagarinho os seus estragos (porque também alteram a pressão arterial, o batimento cardíaco ou podem originar alterações hormonais ou metabólicas).

É o treino de padel com o seu amigo a que tem de faltar porque a tarefa que tem mesmo de acabar está a demorar mais tempo a ser finalizada. É o erro detectado no relatório que tenta corrigir rapidamente sem que se dê por isso. Um, após outro, vão desgastando a pouco e pouco.

Ao que parece, estes microstressores não desencadeiam uma resposta adaptativa da mesma forma que os stressores comuns. É como se escapassem ao nosso radar. Assim, vão acumulando o seu efeito e criando mal-estar até ao ponto de uma pequena tarefa, como ir levar o lixo, passar a ser sentida como impossível de realizar e fonte de grande desconforto, nervosismo e irritação, desproporcional ao “acontecimento” que realmente é.

Os microstressores são ainda causadores de outros microstressores, por vezes em cadeia, como a discussão com a pessoa com quem vivemos e que tinha acabado de fazer muitas outras tarefas domésticas e agora tem também mais uma para fazer…

Claro que nós somos capazes de ir lidando com cada um destes microstressores e um a um os ir eliminando. Como o fazemos sem o nosso modo automático habitual, com o qual lidamos com fontes de maior stresse, isto significa gastar doses adicionais de recursos, como que utilizando uma maior largura de banda. É desta forma que ficamos com menos espaço para a resolução de outros problemas. E é aqui, como provavelmente o leitor já esperava, que voltamos ao tema inicial: a guerra.

As circunstâncias contextuais causadas por uma pandemia e uma guerra, bem como as suas consequências, deixam-nos exauridos psicologicamente, sem grande espaço para lidarmos com aquilo que seriam apenas pequenos problemas do dia-a-dia. Parece que estamos todos mais intolerantes, dizem alguns… Com menos disponibilidade de recursos temos de ser mais económicos na tomada de decisão sobre outras coisas.

Somos assim mais preto ou branco, mais amo ou detesto, mais… polarizados. Mais conflituosos. Esta é mesmo uma Guerra, mais subversiva (outra?), que estamos a “travar”.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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