Dois anos após o primeiro caso de Covid-19 em Portugal, a propagação do vírus abrandou depois de avançar, mas ainda se mantém bem ativa, tendo infetado mais de 40% da população e provocado a morte de 23 mil pessoas… Números incompreensivelmente altos e dramáticos. A morte de 1 em cada 200 infetados colocou Portugal, segundo os dados e a avaliação do Centro Europeu de Controlo de Doenças, entre os piores países da Europa no que respeita a novos casos nesta última vaga e mortalidade da pandemia.
Foi nestes dois anos drásticos que o país foi empobrecendo muito mais que os outros, cada vez mais dependente da ajuda externa, dos fundos estruturais e das verbas europeias do PRR, pois estamos cada vez mais, e exponencialmente, endividados.
Mesmo antes deste drama que se iniciou em janeiro de 2020, a dívida pública já atingia 136,3% do PIB, 270,4 mil milhões de euros, o maior valor de sempre, quer em rácio do PIB quer em valores absolutos, crescendo num ano apenas 19,1 pontos percentuais – o que corresponde a um aumento de 20,4 mil milhões de euros só em 2020.
Feitas as contas, cada cidadão português devia, em 2020, mais 26 mil euros, para além do que individualmente cada um deve aos bancos, sem falar no endividamento das empresas e da economia.
No primeiro trimestre deste ano, a dívida, apesar de estabilizar relativamente ao PIB, voltou a crescer mais 6 mil milhões, para os 276 mil milhões de euros, o segundo maior valor de sempre face ao PIB, mas um novo recorde em montante, segundo dados do Banco de Portugal. Apesar deste aumento exponencial, associado ao crescimento das taxas de juro, o Orçamento do Estado (OE) aprovado há dias, ainda não contém uma previsão real do fenómeno inflacionista para o resto deste ano.
No entanto, o mesmo contém uma verba de 6.285 milhões de euros para suportar encargos com os juros da dívida pública em 2022 (5.401 milhões de euros em 2021), o que, na prática, transforma o IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e dívida pública) num “Ministério da dívida”, o maior, aquele que mais gasta do OE.
Se, em termos orçamentais, são cerca de mais 900 milhões de euros de encargos, com as subidas anunciadas nos últimos dias pelo BCE, os efeitos sobre todos os Portugueses serão devastadores, pois ao contrário do que dizia José Sócrates, a dívida não é coisa de crianças, é real e gera encargos que serão pagos dos nossos impostos, comprometendo os investimentos necessários e os apoios às famílias e empresas.
No contexto europeu, Portugal, que até sofreu muito mais com o impacto da pandemia do que a média dos países da União Europeia, apesar do reforço dos meios financeiros da bazuca europeia, está hoje mais pobre e exponencialmente mais endividado, e tem um combate gigante para travar, pois o vírus, a guerra, a inflação, os custos da energia e combustíveis, e a taxa de juro, continuam a agir sem rosto nem piedade.
É que a fatura a pagar no futuro, incluindo a dos desperdícios do passado, não pode continuar a colocar em causa as próximas gerações, o nosso futuro coletivo, o País.