Qualquer reflexão feita por um são-tomense num mês de julho não consegue contornar o assunto “Independência”. Mas, desta vez, a mesma reflexão tem um gosto diferente, porque carrega o alarme de que 2025 é o ano do Jubileu da maioria das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). E aqui começa o paradoxo, porque no Jubileu deveríamos jubilar, o que, ‘dicionaricamente’ falando, significa demonstrar alegria e júbilo, festejar e até regozijar-se.
Contudo, este ano ouço mais cochichos, vozes internas e externas, todas contraditórias. Umas afirmam que nada foi feito, outras que algo foi feito e até algumas dizem que muito foi feito. Neste emaranhado de sentimentos e cogitações, é simplesmente justo respeitar a perspetiva de cada qual. E embora saibamos que as três afirmações conterão as suas verdades, é preciso que os PALOP se reconciliem com as suas independências.
Desde logo, porque não existem borrachas para apagar o passado, nem botox para rejuvenescer o tempo, pelo que já não dá para reverter na íntegra o que foi feito de 1975 a 2025. Ironicamente, essa constatação poderá sugerir um aroma de impunidade, porque conhecemos os atores e podemos refletir em que circunstâncias atuaram.
Neste caminho de 50 anos, com trilhos empoeirados e outros de alcatrão, igualmente temos de ponderar o que aceitamos e porque aceitamos. Porque se só governa quem a maioria elege, decorre que o poder é consequência direta do exercício feito por cada cidadão no sigilo de uma cabine de voto; logo, cada um de nós é um ator ativo desse exercício conjunto de cidadania. Mas, será que temos exercido a nossa autorresponsabilidade?
Teimamos em não encontrar responsáveis, falamos, mas não atuamos. É como se soubéssemos que sem perdão não se avança e sem autoperdão a alma seca. E, quiçá se entenda, porque o almejado bem maior foi alcançado: a independência, traduzida no hino que quando ouvimos a alma estremece, na bandeira que quando tremula aquece a alma e que sintetizam a liberdade. Estas são conquistas preciosas demais para se pôr em causa, mas já não são suficientes, porquanto há ainda muito caminho a percorrer.
É certo que já não somos analfabetos nem serviçais, mas a pobreza persiste, as aspirações se desvanecem e a energia esmorece numa África que deveria estar vívida para acompanhar a rápida e profunda mudança global, sem perder o legado do que foi ser descolonizado, e recipiente vivo da passagem do testemunho da liberdade.
O ano do Jubileu nos atribui a certidão de uma maioridade inquestionável, em que já não há mais desculpas. Antes nos sentencia a buscar a restauração do contrato social, da credibilidade política e da inclusão, em que todos são instados a contribuir.
Temos de rapidamente virar páginas e reescrever uma nova narrativa democrática, visando o progresso económico. Porque sem pão, sem saúde de qualidade, sem educação de referência e prosperidade, a liberdade está em causa.
Em 2025, todos temos sim de exercitar 50 anos de Perdão, corrigir as injustiças ocorridas e reconhecer o que foi positivo. Só assim poderemos alcançar justiça, forjar consenso naquilo que é fundamental e desenvolver uma acelerada capacidade de reinvenção. Devemos isso à nossa Terra Mãe. E, por isso, e tal como é dito na nossa ilha de São Tomé e Príncipe, num dia de Bocado*: Eu peço perdão!