Paulo Cardoso do Amaral, Professor da Católica-Lisbon

A importância estratégica da tokenização de produtos financeiros

A 4ª Revolução Industrial está a caminho e, desta vez, começou no sector financeiro. Que oportunidades nos esperam com a tokenização dos seus produtos e serviços?

A tokenização de produtos financeiros vai começar a sério na União Europeia (UE) em 2025, tal como já aqui discuti. Na verdade, quando falamos de produtos, também estamos a pensar em serviços, pois a lei na UE requer o licenciamento dos mesmos para que ambos possam ser oferecidos aos consumidores, e sempre com a devida supervisão. É por isso que as criptomoedas não reguladas, bem como os modelos de negócio da DeFi, não podem ser considerados serviços financeiros no sentido estrito do termo, estando, no entanto, à disposição dos consumidores para investimento e reserva de valor.

Assim, para que possamos utilizar a auto-execução da web3 nos serviços financeiros, terão de aparecer novos fornecedores devidamente regulados, e a questão é que serviços vão passar a estar disponíveis. A regulação aplicada Julho de 2024 refere agregados monetários, e a que foi aplicada já em Abril de 2023 foca em (i) acções, (ii) obrigações e (iii) fundos com unidades de participação.

Já aqui tenho referido que não devemos utilizar uma nova tecnologia para fazer o mesmo que antes, pois, nesse caso, o único ganho será o de algum potencial de eficiência, não esquecendo que este mesmo ganho terá sempre de compensar o investimento necessário para operar toda a mudança, e muito para além da tecnologia em si.

Ora, a história tem mostrado que o sucesso das novas tecnologias, tais como a web ou a mobilidade dos smartphones, vieram criar de modelos de negócio completamente novos, invalidando inclusivamente os anteriores. Temos vivido já há quase três décadas no mundo da disrupção com novos ecossistemas e novos equilíbrios, sendo as Big Tech exemplos dos mais incontornáveis.

A 4ª Revolução Industrial está a caminho e, desta vez, começou no sector financeiro. Que oportunidades nos esperam com a tokenização dos seus produtos e serviços?

Em primeiro lugar, convém recordar o que já pode ser tokenizado por lei.

Quando se ouve falar em abordagens agnósticas relativamente à tecnologia, tal significa que a utilização da web3 não fará mais do que o que já era possível com as tecnologias anteriores, e sem qualquer valor acrescentado. É o caso dos exemplos de tokenização franceses e alemães essencialmente de obrigações e fundos até à data, não sendo, portanto, verdadeiramente interessantes. Então, quais as verdadeiras vantagens da web3 quando aplicada de forma não agnóstica para além do que é possível com as tecnologias anteriores? Na verdade, a inovação em causa já começou e vai ter lugar por patamares.

O primeiro e mais simples patamar é a tokenização do dinheiro fiduciário, já em curso desde Julho de 2024. O facto de os euros neste tipo de formato digital terem vida própria, vai revolucionar o sistema de pagamentos na União Europeia.

Mas o mais interessante não é olhar para os pagamentos como habitual, mas sim a possibilidade de estes serem utilizados no contexto da auto-execução ecossistémica de transacções, só possível na web3. Ora bem, para beneficiar das vantagens desta tremenda redução de fricção na economia, vamos precisar de carteiras digitais devidamente certificadas e que identifiquem os seus utilizadores de uma forma semelhante ao que já fazemos hoje com a chave móvel digital. Está a caminho, tal como aqui já discutimos.

Ora, também é assim que devemos olhar para a tokenização de acções, obrigações e fundos com unidades de participação. A sua extrema conveniência vai permitir, pela primeira vez, a existência de mercados secundários desses mesmos produtos com liquidação em quasi-tempo-real e aberto a todos os que queiram participar em ambos os lados do mercado, i.e., oferta e procura. Estes produtos financeiros vão passar a estar mais acessíveis às empresas de menor dimensão, e esta democratização promete libertar um conjunto enorme de activos até hoje impossíveis de activar para suportar a economia.

Mas há uma última dimensão que torna a tokenização de activos financeiros verdadeiramente estratégica, quer para as organizações competidoras na economia, como para a economia em si, sendo inclusivamente factor de vantagem competitiva para ambos os níveis de agregação das actividades. É que o sector financeiro não é um fim em si para a economia, mas apenas um meio para a tornar mais eficiente cada ecossistema onde o capital, nas suas várias formas, faça a diferença, mesmo para as simples trocas de valor. Ou seja, vão ser os vários ecossistemas económicos a beneficiar directamente da conveniência acrescida das transacções financeiras.

Por exemplo, o sector imobiliário, nas suas diversas fases, desde a construção e promoção, passando pela venda, aquisição, investimento ou aluguer, vai ser com certeza dos primeiros a beneficiar da revolução. E o que dizer dos sectores que dependam da trade finance, a partir do momento em que os direitos associados aos activos financeiros possam ser auto-executados em garantias que trocam de mãos?

A web3 vem aí e é a sério. Está na altura de todos pensarmos como aproveitar as vantagens de ser o primeiro. Precisamos rapidamente de uma estratégia.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.
Espanha obriga a documentos digitais no transporte de mercadorias a partir de outubro

Espanha obriga a documentos digitais no transporte de mercadorias a partir de outubro

Maria Teixeira Alves2 Set
Os motoristas terão de estar munidos do respetivo DeCA durante as operações de transporte de mercadorias com origem e destino em território espanhol, incluindo as operações de cabotagem realizadas por transportadores de outros Estados-membros da União Europeia. A medida representa, segundo o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), mais um passo na modernização do setor.