O impacto de uma mente saudável em pessoas, organizações e na economia.
Como dita a tradição, a entrada de um tema como a “Semana Laboral de quatro dias” no apressado e dificilmente satisfeito carrossel mediático deste país não passou despercebida. Através de um decisivo polegar, ou para cima, ou para baixo, vindo da tribuna dos inúmeros imperadores que “montam Roma em um dia” cada vez que se fazem acompanhar de um par de cabeçalhos e uma dúzia de comentários lidos de relance, o veredicto já havia sido lançado antes sequer de entrar no coliseu.
Porém, o relançar de uma discussão que agora se reveste de temas como a saúde mental e a alteração dos padrões de produtividade, dá sinais de que esta nova semana laboral é apenas um dos primeiros passos de um processo que veio para ficar, apesar de o seu julgamento ainda estar longe de ser efetivo.
O conceito já data da segunda metade século XX. A “semana de quatro dias de trabalho”, no seu sentido mais lato, baseia-se no aumento de produtividade individual, resultante da possibilidade de descansar um dia, relacionando assim uma redução de 20% das horas de trabalho em troca de um possível aumento da produtividade que seria não só superior a 20%, mas, também, estaria positivamente associado a variáveis dependentes desta mesma relação a longo prazo, desde o stresse ao equilíbrio trabalho-casa. Digamos que seria o relançar de um ambiente de inovação e de um “workflow” mais personalizado.
Não obstante, e abrangendo ambos os lados de uma discussão que não parece ter fim à vista, este conceito poderá passar por ambicioso quando associado a uma reforma generalizada do trabalho na economia. Indústrias onde a cultura de trabalho tenha uma noção de produtividade menos linear são vítimas da dificuldade em garantir que as dinâmicas de “20%” mencionadas anteriormente sejam sustentáveis.
Mais. Trabalhos que, por exemplo, estejam associados à atualidade, desde noticiários até aos outros meios de comunicação, expõem-se ao risco de reduzir a cobertura de eventos por falta de mão de obra, algo que é também acompanhado por um acréscimo de preocupações e custos associadas a estas novas logísticas.
De facto, a “semana de quatro dias” não é a combinação que desbloqueia todos os cofres. Ainda assim, este conceito não é, nem nunca se apresentou com intenções de ser o destino singular de toda uma economia. Representa apenas um dos diversos primeiros passos de um percurso que, por sua vez, poderá, de facto, reestruturar a economia. Daí que, no cerne deste processo, esteja a flexibilidade; e como objetivo deste mesmo processo, testemunhar os impactos de uma mente saudável nas pessoas, nas organizações, e na economia.
Por último, o debate não passa por definir se “5-2” já é uma goleada que implicaria uma reestruturação da administração desportiva ou se um “4-3” é digno, tendo em conta o quão avançado já vai o campeonato. Quando a saúde mental entra em jogo, o processo mencionado no primeiro parágrafo não se materializa num debate sangrento sobre a diferença entre valores absolutos, sejam eles o quatro ou o cinco, ou até sobre o pé quente do avançado ou o azar do guarda-redes.
Eis que não se trata de discutir e alterar o resultado final desta partida, trata-se, na verdade, de alterar as regras do jogo, deixando o resultado desenrolar-se à maneira de cada indivíduo, de cada organização e da economia perante esta ainda jovem revolução dos novos motores do mercado de trabalho: a flexibilidade, o equilíbrio “trabalho-casa” e, entre outros, a saúde mental.
O “Economia Viva” é o maior ciclo de discussões económicas organizado por jovens economistas, em Portugal. Referente ao debate da oitava edição que decorreu no dia 21 de abril na Nova SBE, este contou com a aclamada participação de Maria Ana Matias e Heather-Lynn Rogers, com a moderação de Hugo Marques de Sousa, lançando assim mote para o presente artigo. O debate poderá ser revisto, em breve, nos canais oficiais do NEC.