A Jornada Mundial da Juventude, que por estes dias tem lugar no nosso país, tem sido alvo das mais diversas análises, que em muitos casos revelam alguma incompreensão em relação ao peso que a religião – e o catolicismo em particular – tem em Portugal e, sobretudo, pela sua capacidade de atrair milhões de jovens em Portugal e no mundo.
Estas análises não surpreendem, tendo em conta o divórcio que a pequena bolha mediática de Lisboa e Porto tem demonstrado em relação ao sentir da maioria da população portuguesa, nos últimos anos. Isso explica, entre outras coisas, a forma como frequentemente o nosso jornalismo passa à margem dos temas que realmente interessam às pessoas, servindo antes para defender determinadas causas, para não falar de outras situações menos benignas.
A verdade é que Portugal continua a ser um país maioritariamente católico, com 80,2% dos portugueses a declararem-se como tal nos últimos censos. E fizeram-no sem que alguém lhes apontasse uma arma ou ameaçasse com as chamas de um auto-de-fé. Se essas pessoas vão à missa ou se seguem à risca os preceitos do clero não é tão relevante como alguns observadores querem fazer crer.
As pessoas dizem-se católicas, embora possam viver a sua fé de forma diferente de outrora. Mas haverá algo que não tenha mudado nos últimos 50 anos? Se mudou a forma como trabalhamos, como nos relacionamos, como nos expressamos e viajamos, como nos divertimos e amamos, porque não haveria de mudar a forma como muitos de nós se relacionam com o divino e a espiritualidade?
Por muito que isto desagrade aos sectores mais conservadores da Igreja, e também aos anticlericais que gostariam simplesmente que o cristianismo desaparecesse, o rumo que o Papa Francisco imprimiu à Igreja desde o início do seu pontificado é aquele que vai assegurar que esta comunidade de crentes possa continuar a fazer sentido no século XXI. E, mais importante que isso, que possa ser uma força do Bem no mundo de hoje, depois de expurgados os crimes dos abusos sexuais cometidos no seu seio, o que Francisco tem procurado fazer sem qualquer contemplação.
De resto, a visão deste Papa para a Igreja é a de uma igreja verdadeiramente católica, isto é, universal. Não por acaso, a palavra “Igreja” vem do grego “ecclesia”, que significa assembleia. A Igreja é a assembleia daqueles que acreditam. E nessa assembleia devem caber todos os que têm como denominador comum a pertença a esta comunidade, desde os mais tradicionalistas que anseiam por missas em latim aos que preferem outras formas de viver a sua fé em comunhão com os outros 1,4 mil milhões de católicos de todo o mundo. Isto não é novo, como demonstra o facto, tantas vezes esquecido, de que a Igreja Católica é composta por seis ritos, com 21 igrejas diferentes, todas em comunhão com o Bispo de Roma, mas cada uma com a sua própria tradição e regras distintas sobre temas polémicos como o celibato dos padres.
A história da Igreja sempre foi de unidade na diversidade. Mas o que importa, no fim do dia, é que as pessoas, tendo fé ou não, acreditando em Jesus ou Maomé, Buda ou Krishna, se possam tornar melhores, mais compassivas para com o próximo e portadoras de luz e esperança.