Luís Mira Amaral, Engenheiro e Economista

União Europeia, Mercosul e Índia

Os acordos de comércio livre da UE com a Índia e o Mercosul têm condições assimétricas e de concorrência desleal para os produtores europeus.

A União Europeia (UE), como resposta ao protecionismo americano, está a dinamizar uma série de acordos comerciais com outras geografias. Os Estados-membros da UE aprovaram no início deste ano o acordo comercial entre a União e o Mercosul, mercado comum da América Latina formado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, apesar da forte oposição dos agricultores e de estados como a França e a Polónia.

Teremos um mercado de 700 milhões de consumidores e um comércio estimado em cerca de 28 mil milhões de euros.

Há 26 anos, quando começaram estas negociações, criou-se o Mercosur European Union Business Forum, com empresários europeus e latino-americanos. Fui o primeiro Chairman deste fórum pelo lado europeu, em representação da AIP, e conheço bem as resistências dos agricultores europeus preocupados com o Brasil e a Argentina, grandes potências agrícolas e agroindustriais.

Portugal exportava , em 2024, 1227 milhões de euros, cerca de 1,4% das nossas exportações, e pensa-se que os vinhos, azeite e queijos serão dos produtos portugueses mais beneficiados, designadamente para o mercado brasileiro.

A seguir, a União, após 18 anos de negociações, concluiu com a Índia um novo tratado comercial, criando uma zona de comércio livre de dois mil milhões de consumidores, reduzindo ou eliminando barreiras sobre 96% dos bens comercializados entre a UE e a Índia. Pensa-se que tal possa impactar os fluxos de comércio, as cadeias de valor e as cadeias de abastecimento entre empresas e operadores logísticos europeus e indianos.

As exportações portuguesas para a Índia são apenas 179 milhões de euros, cerca de 0,2% do total das nossas exportações. Neste contexto, pensa-se que o mais importante para Portugal será a capacidade de atrair investimento indiano em setores em que são fortes, como as TI e a indústria farmacêutica.

Mas, nestes acordos, a União deixou cair o CBAM – Carbon Border Adjustment Mechanism, desenhado para pôr uma taxa de carbono nos bens importados intensivos em carbono de espaços que não têm a taxa de carbono, como acontece no Mercosul e Índia, que a UE impõe aos produtores europeus, de acordo com o EU Emissions Trading System (ETS).

Assim a UE, ao fazer acordos de comércio livre com estes blocos, estabelece com a sua fundamentalista política climática (apenas emitimos 6% do CO2 mundial) condições assimétricas e de concorrência desleal para os produtores europeus!

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.