A dois dias das eleições legislativas mais aguerridas dos últimos tempos, é ainda cedo para adivinhar quem sairá vencedor – e mais ainda quem poderá formar governo –, apesar da vantagem que, segundo as sondagens, a AD terá. Porém, não é cedo para retirar algumas conclusões a respeito da forma como esta campanha decorreu.
A primeira é que a estratégia da AD de fechar a porta a um acordo com o Chega produziu resultados, juntamente com o recentramento do partido e com intervenções cirúrgicas – como a de Passos Coelho – que visaram tirar oxigénio ao partido de Ventura, ainda que correndo o risco de perder votos ao centro.
Se esta estratégia assente num delicado equilíbrio será suficiente para vencer as eleições só saberemos no domingo, mas, aparentemente, travou a ascensão do Chega nas sondagens. Não por acaso, o partido de André Ventura começou a cair nos estudos de opinião a partir do momento em que Montenegro deixou claro que não tenciona abrir a porta a um entendimento.
E a forma como Ventura agiu nas duas últimas semanas, chegando ao ponto de falar de uma eventual tentativa de fraude eleitoral, mostra como as suas expetativas de um resultado acima dos 20% estão agora mais longe de se concretizar. A sua alusão a um dito acordo secreto com as “forças vivas” do PSD, entretanto desmentido pelos viventes em causa, foi outra prova disso. E se até há poucos meses um resultado de 12% a 16% para o Chega seria excelente, hoje, uma votação dessa grandeza terá um certo sabor amargo, devido às expectativas que foram criadas.
No entanto, o Chega é e será uma força a ter em conta, e a segunda conclusão é que a principal divisória dos nossos dias já não é entre esquerda e direita, ou entre sociais-democratas e liberais, mas sim entre a democracia liberal e os vários populismos e radicalismos que – de forma muito conveniente para a Rússia de Putin – pairam como um espectro sobre as nossas democracias, o estado de direito e o projeto europeu.
Por fim, a terceira conclusão é que a candidatura de Pedro Nuno Santos tem estado mais focada na defesa daquilo que foi feito em oito anos de governo socialista do que propriamente em ideias novas para o país, embora o líder do PS as tenha.
A mensagem chave do PS nesta campanha eleitoral tem sido mais situacionista do que socialista, com constantes alertas contra os aventureirismos da oposição e o “mudar apenas porque sim”. O futuro dirá se esta estratégia resulta, ou se, caso perca as eleições, Pedro Nuno Santos terá oportunidade para imprimir o seu cunho, romper com a velha oligarquia e lançar um novo projeto para o país.