D. Dinis terá perguntado à Rainha Santa Isabel o que levava consigo, tendo esta feito um milagre e respondido:“São rosas, senhor!”. Neste mundo tecnológico também se procura embelezar e apresentar alguns milagres, em particular nesta época fundamental de Transformação Digital das empresas.
Contudo, um processo de Transformação Digital tem muito pouco de espiritualidade ou crenças, tendo muito mais de racionalidade pragmática, estratégia e liderança. Ou seja, muitos desafios existem, os quais requerem um conjunto de atividades consistentes, continuadas, melhoradas, mas sempre estruturadas. Só assim se poderá ter benefícios extraordinários e essenciais para a sustentabilidade futura nas empresas.
Por isso, é importante entender o fenómeno das modas tecnológicas, que funcionam como ondas de comunicação, onde dois fenómenos principais ocorrem: a necessidade de todas as empresas incorporarem aquela tecnologia, porque certamente “o seu futuro” só com isso será sustentável, e tudo o que é tecnologicamente apresentado tem embebido essa moda nas suas novas funcionalidades.
Só em 2023, passámos já por duas modas: Metaverso e ChatGPT. Já reparou que, no ano em curso, todos os produtos têm Inteligência Artificial? Mas será que existe algum mal neste fenómeno? Não, até porque é o normal modelo dos fornecedores (tecnológicos) do mercado apresentarem-se como inovadores e procurarem influenciar os seus potenciais clientes de que o futuro passa pela sua tecnologia facilitada.
Desta forma, procuram passar uma mensagem de facilidades de um processo de Transformação Digital, inerente à realidade existente no mercado e fundamental para o sucesso das empresas no mercado.
A realidade, porém, é outra! Vários estudos apontam para vários projetos de Transformação Digital falhados. Mas porque será tão difícil realizar Transformação Digital nas empresas? Porque é fundamental entender o processo de o fazer! Não há milagres tecnológicos. Nunca a tecnologia resolverá problemas de gestão, de liderança ou de modelos de negócio.
Desde logo, o processo inicia-se com a necessidade de ter uma visão para a empresa, alicerçada em lideranças dinâmicas, em partilha de conhecimento e em capacidade de delegação. Atualmente, não há o “one man show”.
A visão da liderança máxima poderá ser sistematizada no desenho de uma estratégia digital, que alavanque a estratégia de negócio. Nunca a visão empresarial é traduzida numa tecnologia, mas sim em modelos de negócio, onde a tecnologia é um dos suportes possíveis de uma estrutura de gestão digital.
Com isto se definem prioridades! Fundamentais para se definir áreas de experimentação, capazes de testar o negócio, errar, corrigir e identificar as capacidades internas da própria empresa.
Ou seja, as chamadas estratégias “big bang”, de mudar tudo de “um dia para o outro” na empresa, não fazem qualquer sentido. Nunca! Começar em âmbitos restritos, sem grande impacto, caso haja alguma falha. Acima de tudo, importa adotar uma das frases míticas de Fernando Pessoa: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Primeiro testa-se, corrige-se, melhora-se num âmbito restrito, depois alarga-se, vive-se e cresce-se!
Mais. É fundamental perceber que a Transformação Digital é uma viagem e não um ponto de chegada, no qual não há milagres de rosas, até porque a realidade nos mostra que as rosas mais bonitas têm muitos espinhos e devem ser bem podadas, para que a rosa possa desabrochar com uma cor viva.
Em termos práticos, entender os pontos fortes e fracos da organização para, iterativamente, se alcançar patamares de eficiência e eficácia elevados, através da gestão de dados digitais nos seus processos operacionais, que permitam tomadas de decisão adequadas pelas lideranças. Afinando “os espinhos”, melhorando as equipas e as suas operações.
Transformação Digital são rosas, senhor?! Sim, mas para criar belas rosas, importa saber trabalhar com e para elas.