Se tivéssemos de classificar esta década que vivemos, do ponto de vista social e económico, uma palavra entre muitas se distingue: resiliência.
Desde 2020 que, de forma coletiva, se vivem tempos de exceção. Tudo começou com uma pandemia de saúde pública que a todos desafiou, dando origem a uma das maiores crises financeiras. Passados três anos, será que tudo foi feito para apoiar as famílias e a recuperação da nossa economia, em especial o comércio e os setores do turismo e da restauração, no sentido de travar o mais que evidente tsunami social?
Depois dos picos devastadores da pandemia veio uma crise política de quase meio ano, que resultou numa maioria socialista, e, no último ano, apanhámos ainda os estilhaços de uma guerra provocada pela Rússia, que desencadeou uma escalada de preços na energia, na eletricidade e, mais recentemente, nos bens alimentares e cereais em Portugal e na Europa, e ainda uma subida galopante das taxas de juro sobre os empréstimos.
Numa guerra histórica e ideológica sem sentido, absolutamente censurável e condenável, que apesar das prontas sanções europeias e americanas e da heroica resistência ucraniana, se mantém um crime de guerra perpetrado por um ditador, Vladimir Putin, e uma chacina de civis e inocentes a que urge pôr fim.
O mundo ainda está a recuperar da pandemia de saúde publica e já enfrenta outro desafio, a luta pelos direitos humanos e de liberdade, com consequências suficientemente preocupantes para todos, numa fase em que o mundo e Portugal projetava o pós-crise e a efetiva recuperação da economia, para evitar um contágio da pandemia também no plano social, que não comprometa o nosso futuro coletivo.
Ora, tudo seria mais fácil se sentíssemos que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) estava a corrigir todos estes impactos sociais e económicos negativos, mas essa correção tarda e não chega de forma suficiente – injustificadamente –, pois muitas das ações tardam a sair do papel e comprometem a sobrevivência profissional de muitas centenas de milhares de portugueses que enfrentam hoje sérias dificuldades.
Outra parte dos fundos apenas financiam o Estado, que apesar de encher os cofres com o acréscimo da receita de impostos sobre o consumo, utiliza o PRR para os seus investimentos e gestão de tesouraria, como o pagamento da despesa corrente do SNS, entre tantos outros exemplos.
Uma triste realidade, na qual as famílias se questionam como irão pagar os juros das suas habitações e os bens essenciais para viver, por um lado e, por outro, assistimos à grande distribuição a contribuir para a inflação ao aumentar os preços dos bens que a partir da próxima semana beneficiarão de IVA à taxa 0%, em que os consumidores não sentirão qualquer redução de preços. Na verdade, o Governo está a agir tarde, sem apoios estruturados e diretos a quem mais necessita, para travar a inflação e a subida dos juros.
Não podemos, e não merecemos, correr mais riscos. Urge criar condições para contornar mais um tsunami, depois do outro ter tido efeitos nefastos nas pessoas. As mesmas que pagam impostos e descontam para a segurança social e que não se podem sentir tão desprotegidas. O Estado não pode falhar aos cidadãos. É, pois, tempo deste Governo se deixar de casos políticos e, sem simulações, começar a trabalhar para proteger os portugueses, antes que seja tarde demais.