O meu pai foi jornalista toda a vida e a quási totalidade debaixo da ditadura. Ensinou-me, sem ser preciso fazê-lo, palavra a palavra, a ler nas entrelinhas desde cedo, quando os artigos não eram totalmente censurados. O que ele induziu em mim foi, de facto, ter um espírito crítico. Isto ficou cá dentro e ainda bem. Ler um jornal, seja em que regime for, ver um filme, notícias filmadas, há que fazê-lo em dois planos para não perder o todo. Na aparência e nas entrelinhas. Há entrelinhas na imagem também, isto é, uma imagem pode ser contradita por outra daqui a alguns, ou mais, momentos. Atenção!
Passemos a exemplos. A BBC apresentou programas, que eu chamo entrelinhas, que bem documentados, negam as notícias oficiais espalhadas pelos meios oficiais: a mesma BBC e outros canais públicos e privados. Aqueles aparecem raramente e só uma vez. Quem tem a sorte de vê-los, teve a sorte de “ler nas entrelinhas”. Os primeiros-ministros recentes do Reino Unido (muitos) querem acabar com a BBC, com a desculpa habitual – que consome muito dinheiro ao Estado. Lá se irão as entrelinhas e cá fica uma população de avatares à l’américaine.
Num flash (entrelinha) apareceu num posto de televisão francesa a imagem de um TGV com cores diferentes e, muito depressa, uma voz anunciava que para 2025(?) podia o espectador começar a pensar em comprar acções para este comboio. E mais nada. Voltou a programação que estava a dar. Alguém reparou? Julgo que poucos. É o princípio. A SNCF pertence ao Estado e este sinal nas entrelinhas é o sinal de que Macron, provavelmente ele, quer privatizar os comboios. Foi nas entrelinhas, discreto por causa dos distúrbios que se passam agora em França. Faz mal privatizar? Muitos, a maioria dirá que não, que até é salutar. Mas o que interessa são os factos.
Voltemos ao Reino Unido (RU). Num daqueles raros e corajosos programas de um episódio só, da BBC, episódio que se referia aos anos 70, vi desmantelar-se a martelo um TGV, que ia ser pioneiro na Europa, depois de anos de trabalho científico e de engenharia, porque Mrs. Thatcher não quis comboios rápidos porque iam gastar dinheiro ao Estado. E ficou o RU com aqueles comboios lentos, obsoletos, que, depois, ela vendeu a privados. Acabou-se a British Rail, os privados tomaram conta, criando várias companhias, descuidaram a manutenção porque era caro e começaram os desastres ferroviários, mas a liberdade de concorrência triunfou.
Ainda no RU, em 2014, no referendo para a independência da Escócia, saiu vencedor o Não. O que é curioso é que jornais como o independente “Guardian”, na própria véspera do referendo, juntamente com outros jornais e meios de comunicação, escreveu que se os escoceses votassem Sim, todas as empresas inglesas sairiam do território da Escócia. Para os indecisos, que os há sempre, foi vital. O medo de ficar sem emprego levou à consequente vitória do Não. É claro que as empresas não iam sair. É claro que a população tem medo, é claro que o “Guardian” cedeu a imposições externas. Será claro que, dias depois, o mesmo “Guardian” tenha vindo pedir desculpa aos escoceses e dizer que não devia ter agido assim?
Passemos à actualidade e às entrelinhas de hoje. Por que motivo se fala tanto da guerra no Sudão de repente e menos da Ucrânia? Porquê mais da China, de Taiwan e do Vietname?
Em situações “normais” o Sudão teria menos cobertura. Parafraseando Shakespeare no “Hamlet”, direi: “Algo está podre no Estado da Ucrânia”. Do Iémen não se fala e já há anos que a tragédia dura com centenas e centenas de milhares de mortes que a ONU, muito a medo, vai revelando. Por que motivo não se fala? Entrelinhas: Ah, será porque o Reino Unido está metido lá até aos dentes, como o jornal “Guardian” num dia de boa consciência acusou?
Os EUA estão irritados com a China, mas têm de fazer desviar os olhos das populações, da Rússia para a China. O Vietname do Norte, o papão, os beras, afinal interessam aos americanos, desde que se afastem dos russos e dos chineses. Vamos ver.
Agora, neste instante, fala-se da guerra da Ucrânia outra vez para que as pessoas no Ocidente não se esqueçam, para manter vivo não sei bem que sentimento: patriotismo, de quem? Democracia, como? Que se vai seguir? Não posso predizer nada, não sou vidente. O Mundo dá-me o texto e eu leio-o e leio também nas entrelinhas.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.