Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Inércia e apatia

Mais de mil mortos por explicar em apenas duas semanas deveriam gerar mais inquietação. Não estivemos meses em confinamento para defender os mais vulneráveis? Qual o motivo para, agora, esse objetivo se ter tornado irrelevante?

Como muitos profissionais, dedico-me à tarefa da exploração de cenários. Quando se trabalha nisto há duas décadas e meia, o assunto torna-se tão rotineiro que acaba por mudar a forma como se vê o mundo, porque tudo parecem indícios do que poderá acontecer.

Tem algumas desvantagens, mas ajuda muito na tomada de decisão e, sobretudo, na mitigação de riscos.

Por esse motivo, e também por uma infeliz experiência familiar passada, a perspetiva de uma forte vaga de calor causou-me a maior das apreensões. Partilhei com os mais próximos que a ausência de um plano especial de contingência iria resultar num elevadíssimo número de mortes. Pois aqui estão elas e… não eram difíceis de prever, até para quem não é especialista em saúde pública.

Às vezes é difícil perceber como funciona a lógica de quem decide. Se tanto se fez para proteger os mais vulneráveis perante a ameaça da Covid-19, como se pode aceitar que tenha sido a 14 de julho que se tenha registado o dia com mais mortes este ano?

Como assentir que todos os portugueses tenham recebido um SMS da proteção civil acerca dos fogos e nem um aviso prático ou medidas no terreno para proteger quem poderia sofrer com a onda de calor?

O problema é conhecido, as previsões meteorológicas estavam disponíveis e era preciso atuar. Pois nada. Quase no mesmo dia, outra tragédia como a de Pedrógão esteve para acontecer nas autoestradas nacionais na noite de 13 de julho, que deveriam estar fechadas. Novamente a inércia e a apatia colocaram em risco centenas de pessoas. E também não era “imprevisível”.

Em Portugal há muitos obstáculos a que os processos de decisão sejam objetivos e racionais. A política e os interesses intrometem-se quase sempre entre a ciência e o bom senso. E depois lamenta-se, diz-se que há problemas estruturais, que o país é pobre e que se vai elaborar um inquérito.

Precisamos de mais execução e talvez isso explique as sondagens que o Almirante tem.

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