Beatriz Amorim, Aluna do 3º ano da licenciatura de Economia na Nova SBE

Escassez de professores: desafio e oportunidade para repensar o futuro da educação

Evidência de alguns países europeus mostra que a precariedade dos contratos nos primeiros cinco anos da carreira pode ter um papel importante na decisão dos novos professores em ficar ou abandonar a profissão, e na atratividade da profissão de uma maneira geral.

Recentemente, tanto a nível europeu como a nível nacional, temos vindo a observar uma escassez de professores. Este problema está associado, por um lado, à diminuição da atratividade da profissão e, por outro lado, ao envelhecimento do corpo docente. Este cenário que se apresenta como um grande desafio constitui também uma oportunidade para repensar o futuro da educação num mundo em constante mudança e rápido progresso tecnológico.

Começando por uma visão europeia. Um inquérito realizado em 2014 revelou que mais de 80% dos professores na União Europeia se sentem subvalorizados. Este sentimento resulta numa diminuição do número de jovens que pretendem seguir a carreira de professor e também numa dificuldade em reter os docentes mais jovens no ensino. Desta forma, a Comissão Europeia recomenda que sejam implementadas estratégias para atrair e reter os melhores professores.

Para além disso, um relatório publicado pelo Parlamento Europeu indica que, na União Europeia, apenas 7% dos professores têm menos de 30 anos, enquanto 36% apresentam idades superiores a 50 anos. Este cenário pode representar já na próxima década um grave problema no que toca à sustentabilidade do sistema educativo.

Olhando mais especificamente para o caso português. Os resultados de estudo de diagnóstico de necessidades docentes de 2021 a 2030 realizado pelo Centro de Economia da Educação da Nova School of Business and Economics em colaboração com a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), indicam a necessidade de contratar 34,5 mil docentes até 2030. Isto corresponde a uma média de 3.450 novos docentes por ano. Contudo, tal como referido no estudo as necessidades de recrutamento intensificam-se ao longo do período de estudo.

Apesar de se prever uma diminuição do número de alunos matriculados de cerca de 15% face a 2018/19, o acentuado envelhecimento dos atuais docentes indica que “dos 120.369 docentes em 2018/19, apenas 73.401 ainda não se terão reformado no ano letivo 2030/31, o que corresponde a uma redução de 39%”. Por outro lado, conclui-se que o “número anual de diplomados de mestrados em formação de docentes é claramente insuficiente para satisfazer as necessidades de recrutamento”.

Tendo em conta este cenário, torna-se assim imperativo refletir sobre as medidas que devem ser tomadas para garantir a atratividade da carreira docente. Em 2020, o Conselho Europeu identificou as condições de trabalho como o elemento essencial para aumentar a atratividade e o status da profissão.

Desta forma, deve ser dada atenção às condições laborais, horas de trabalho, salários e idade da reforma. Evidência de alguns países europeus mostra que a precariedade dos contratos nos primeiros cinco anos da carreira pode ter um papel importante na decisão dos novos professores em ficar ou abandonar a profissão, e na atratividade da profissão de uma forma mais geral. Para além disso, tal como indicado pela Comissão Europeia, é crucial que sejam desenvolvidos programas iniciação à docência. Exemplos de boas práticas no que toca à implementação destes programas podem ser encontradas em países como a Irlanda, os Países Baixos e a Noruega.

Por último, importa também repensar o futuro da educação e do papel do professor. Numa altura em que a informação se encontra à distância de um clique e dada a constante e rápida evolução tecnológica, as escolas deverão ser capazes de preparar os alunos para empregos que ainda não foram criados, lidar com tecnologias que ainda não foram inventadas e resolver problemas que neste momento não é possível antecipar.

Os professores terão um papel fundamental nesta missão. Assim, a necessidade de contratar novos professores apresenta-se como uma oportunidade para apostar numa formação mais completa dos mesmos para que sejam capazes, não só de ensinar e transmitir conhecimentos, mas também preparar os seus alunos para o futuro através do desenvolvimento como o espírito crítico, a criatividade e a aprendizagem autónoma.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.

Relacionado