Tudo o que não apetece enquanto ouvimos o marulhar das ondas do Atlântico é dar atenção ao revolver das entranhas de André Ventura – mas é uma incursão inevitável face à gravidade do momento que vivemos. Uma coisa é aceitarmos a votação nas legislativas com o máximo de espírito democrático, por mais perigosa que essa abertura seja; outra, bem diferente, é sucumbirmos à perfídia do chefe da tribo chegana, já muito avançado no envenenamento do poço coletivo onde todos bebemos.
É importante reconhecer que Ventura identifica alguns dos problemas do país, embora não os mais importantes. Mas esta pontaria política revela apenas instinto e sentido de oportunidade, não significa que ele tem razão ou que as receitas primárias que defende façam sentido. O que é paleolítico deveria ficar no paleolítico. Ainda assim, desde a enorme votação que somou em maio (1,4 milhões), o caudilho do Chega está em pleno processo de transformação de larva em borboleta, embora daquelas mais pardas e agoirentas. O objetivo, como sempre, é dividir, exagerar, omitir e mentir para ganhar simpatia e mais votos. Mas se antes, quando tinha um deputado, lhe bastava atacar tudo e todos quase sem limites, sempre a malhar e a ofender a torto e a direito, uma cloaca a céu aberto, agora o chumbo tem de ser um pouco menos grosseiro.
A ambição aumentou, o poder está à vista e exige uma colher de sal de prudência para ser mais comestível: Ventura quer ser primeiro-ministro, o país gosta do estilo rancoroso e direto – uma qualidade no meio de tantos políticos pasteurizados –, mas ainda pede algum sentido de aparência e decoro. Os ataques, embora nem todos, são agora um pouco mais calibrados e têm uma via de fuga argumentativa que lhe permite insinuar o que, com tantos votos e ambição, já não pode dizer cruamente. Por exemplo, sobre o movimento LGBT diz que só não quer ver bandeiras com o arco-íris “nas câmaras municipais”, desejo que coincide com a opinião de muitas pessoas fartas do wokismo, mas que serve apenas para disfarçar a homofobia que sempre cultivou com sorriso de marialva. Sobre as pessoas de etnia cigana, agora diz que só pede que elas “cumpram a lei”, um desejo de muitos eleitores não radicalizados, que novamente disfarça q.b. o ataque racista que os deputados cheganos escrevem ou repetem há anos.
É verdade, Ventura talvez não seja xenófobo, se calhar é apenas o oportunista – com uma débil relação com a verdade – que aproveita as feridas para se promover. Ainda está, portanto, em transformação. A mudança de roupa definitiva só acontecerá se um dia for eleito primeiro-ministro. Numa das muitas entrevistas televisivas que tem dado – em média, uma por semana – criticou a liderança de Giorgia Meloni. Disse que a presidente do governo italiano não praticava o que pregava, ou seja, que se deixara institucionalizar, traindo os princípios soberanistas que a elegeram. O perigoso Salvini, líder da Lega Nord e amigo de Putin, continua a ser a referência, apesar de ser um político medíocre. A dúvida é, portanto, legítima: qual dos Ventura teremos se um dia a calamidade antidemocrática se abater sobre Portugal e ele for eleito? O Ventura persecutório, com lista de inimigos favoritos e caça às bruxas? O Ventura um poucochinho mais moderado? Ou ambos? Queremos mesmo saber ou vamos evitar este suicídio coletivo?