Pedro Pinheiro, Presidente do ISCAL

Candidaturas em queda: estará o sistema de Ensino Superior a precisar de mudar?

Portugal precisa de um ensino superior mais ousado, mais livre e mais próximo das pessoas. Um ensino que não se limite a replicar modelos do passado, mas que se afirme como espaço de criação, experimentação e impacto.

A queda de cerca de 10 mil candidaturas à primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior não pode ser ignorada nem relativizada. É um sinal claro de que alguma coisa se está a perder entre o sistema educativo e as novas gerações. Mais do que uma quebra demográfica que, embora real, poderá não explicar a dimensão do recuo, o que está em causa poderá ser uma mudança de perceção. Muitos jovens começam a pôr em causa o valor do ensino superior como caminho de valorização pessoal, profissional e social.

Durante décadas, o ensino superior foi apresentado como a via principal para alcançar melhores condições de vida. No entanto, essa promessa parece hoje cada vez mais frágil. Para muitos estudantes e famílias, os custos diretos e indiretos do ensino superior são demasiado elevados (conjugando a propina com as despesas de alojamento, alimentação e transporte), especialmente quando contrapostos com as perspetivas de remuneração futura. A verdade é que milhares de licenciados continuam a ser mal pagos, precários ou subvalorizados no mercado de trabalho. Quando um jovem faz as contas e percebe que, depois de três ou cinco anos de investimento, o retorno é incerto ou insuficiente, a motivação para se candidatar fica também ela mais frágil

Acresce a isso que os estudantes não querem apenas diplomas; querem experiências transformadoras, competências relevantes, contacto com o mundo real e percursos personalizados. Querem saber que o que estão a aprender terá impacto nas suas vidas e nos desafios que os esperam. Se o ensino superior não responder com inovação, agilidade e propósito, arrisca-se a ser ultrapassado por outras formas de aprendizagem mais flexíveis, acessíveis e orientadas para resultados.

Não se trata de culpar os estudantes, nem os docentes, nem sequer as instituições. Trata-se de reconhecer que o modelo atual está esgotado. Durante demasiado tempo, o ensino superior em Portugal tem funcionado sob um manto de normativos excessivos, constrangimentos burocráticos e uma cultura de controlo que sufoca a capacidade de resposta e a criatividade das instituições. A obsessão pela regulação minuciosa dos processos ofusca a necessidade de focar nos resultados: na qualidade da aprendizagem, na empregabilidade, na inovação pedagógica, na relevância social.

É tempo de dar espaço às instituições de ensino superior e simultaneamente de as responsabilizar. Não espaço para fazer o que quiserem, mas para serem responsabilizadas com base nos seus resultados, e não na conformidade cega com regras. A autonomia deve ser real e acompanhada de responsabilidade: quem forma melhor, quem inova mais, quem contribui para o desenvolvimento do país deve ser reconhecido e apoiado.

Esta crise nas candidaturas é também uma oportunidade para o sistema repensar o seu propósito. O ensino superior deve voltar a ser visto como uma alavanca de mobilidade, inovação e justiça social. Para isso, é fundamental abrir canais de diálogo com os jovens, perceber as suas aspirações, envolver antigos estudantes, criar mecanismos de escuta ativa e de coconstrução da experiência académica. Não basta atrair alunos; é preciso envolvê-los, inspirá-los e desafiá-los a construir o seu futuro com sentido.

Portugal precisa de um ensino superior mais ousado, mais livre e mais próximo das pessoas. Um ensino que não se limite a replicar modelos do passado, mas que se afirme como espaço de criação, experimentação e impacto. Se queremos mais jovens no ensino superior e se queremos ser um hub para estudantes internacionais, temos de lhes dar razões sólidas para lá estar: com remunerações mais dignas à saída, com percursos que façam sentido e com instituições que estejam verdadeiramente ao serviço do conhecimento, da sociedade e da transformação.

É tempo de agir. Não para salvar números ou preencher vagas, mas para restaurar o pacto de confiança entre o ensino superior e as novas gerações. Se o não fizermos, não será apenas o sistema educativo a perder, mas sim o país inteiro.

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