Bianca Mattos, Coordenadora de Políticas da WWF Portugal

As cidades que lideram a ação climática

Os municípios que investem na ação climática reforçam a sua capacidade para atrair investimento, criar emprego qualificado, reter talento e, principalmente, aumentar a resiliência das suas infraestruturas. A experiência demonstra que quem avança primeiro ganha vantagens competitivas.

Guimarães acaba de ser reconhecida como vencedora portuguesa do One Planet City Challenge 2026. Mais do que uma distinção internacional, este resultado confirma que a liderança climática já não depende apenas dos governos nacionais: está cada vez mais nas mãos das cidades.

Numa edição que reuniu mais de 380 municípios de 50 países, Guimarães foi distinguida ao lado das finalistas nacionais Cascais e Matosinhos, enquanto Makati (Filipinas) e Paris (França) conquistaram o título de vencedoras globais. Para Portugal, este reconhecimento demonstra que a ação climática local não é uma ambição distante, mas uma realidade que pode e deve cada vez mais sólida.

É nas cidades que se concentra uma parte significativa do desafio climático. Responsáveis por mais de 70% das emissões globais de CO₂, são também o espaço onde existe maior potencial para acelerar soluções com impacto duradouro. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) é claro: o ordenamento do território, as energias limpas e as soluções baseadas na natureza são alavancas fundamentais para limitar o aquecimento global a 1,5°C. Com mais de metade da população mundial a viver em áreas urbanas, é à escala local que se joga uma parte decisiva da resposta às alterações climáticas.

O mérito deste reconhecimento reside precisamente na forma como é atribuído. Não distingue apenas intenções, mas resultados: avalia a ambição das metas, a qualidade dos planos de ação e a capacidade de transformar compromissos em benefícios concretos para as pessoas e para a natureza. É este nível de exigência que torna estas distinções credíveis e relevantes, reforçando a confiança de cidadãos, investidores e parceiros.

No entanto, o panorama nacional continua a revelar assimetrias preocupantes: cerca de 60% dos municípios portugueses ainda não dispõem de planos de ação climática. Esta ausência não é apenas uma lacuna administrativa; representa uma vulnerabilidade real perante os riscos climáticos, conforme observamos com as tempestades que atingiram Portugal no início deste ano, e uma perda de oportunidades económicas. Num contexto europeu em que o acesso a fundos comunitários depende cada vez mais da existência de estratégias sólidas, os territórios que não planeiam arriscam perder investimento e competitividade.

Pelo contrário, os municípios que investem na ação climática reforçam a sua capacidade para atrair investimento, criar emprego qualificado, reter talento e, principalmente, aumentar a resiliência das suas infraestruturas. A experiência demonstra que quem avança primeiro ganha vantagens competitivas, enquanto adiar decisões implica custos de adaptação mais elevados no futuro.

O conhecimento técnico existe. Os exemplos de sucesso também. O desafio passa agora por fazer da ação climática, tanto na vertente da mitigação quanto da adaptação, uma prioridade comum a todos os municípios portugueses, e não apenas aos que já lideram este caminho. Para isso, será essencial garantir às autarquias os recursos técnicos e financeiros necessários e promover uma participação ativa dos cidadãos, incluindo os mais jovens.

O verdadeiro desafio não é provar que esta transformação é possível, mas garantir que deixe de ser a exceção e passe a fazer parte da forma como se planeia e desenvolve o território em Portugal. É assim que o país estará mais preparado para enfrentar os desafios climáticos e aproveitar as oportunidades económicas e sociais desta transição.

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