Rui Mayer, Advogado

A importância das eleições para o Parlamento Europeu

Seria mais interessante que os temas de campanha fossem centrados nas preocupações com que a União se defronta. Porque, em última análise, significa discutir a manutenção da Paz.

Arrancou a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. Infelizmente, parece centrada nas questões que em particular preocupam o eleitorado de cada um dos 27 Estados-Membros da União Europeia, e, designadamente, sobre questões relacionadas com a soberania nacional, dificultando, ou mesmo deturpando, uma reflexão séria sobre a União, a sua importância, o seu futuro e o papel que o Parlamento Europeu nela desempenha.

Lembremos que a União Europeia nasceu depois da Segunda Guerra Mundial, a partir de conclusões inovadoras e corajosas de um conjunto de ilustres pensadores, na medida em todas as tentativas anteriores para “prevenir” o desencadeamento de guerras na Europa haviam falhado. A solução não seria “prevenir” ou “evitar” a guerra, mas sim torná-la impossível na prática. Para isso seria necessário retirar aos governos o controlo sobre as principais indústrias que alimentam a produção industrial bélica, o carvão e o aço.

Foi assim criada, em 1951, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) para assumir o controlo do desenvolvimento dessas indústrias. Por contraposição à natureza inter-governamental de todas as organizações internacionais até essa altura constituídas (incluindo a Sociedade das Nações e a Organização das Nações Unidas), a CECA tinha uma natureza supranacional, ou seja, sobrepunha-se aos governos dos Estados-Membros.

A CECA foi o primeiro passo na construção de uma nova Europa onde a Guerra fosse impossível, assente em quatro liberdades fundamentais: a liberdade de circulação de mercadorias, serviços, capitais e pessoas.

O estabelecimento e aprofundamento destes princípios impulsionou a integração económica, que se alargou a todos os factores relevantes para a existência e funcionamento de um verdadeiro mercado único interno, incluindo nas vertentes sociais e ambientais, que por sua vez induziu uma crescente integração política, a união monetária e financeira, e o embrião de uma Política Externa e de Segurança Comum que, face à alteração da situação geoestratégica mundial, assume a maior importância.

A União Europeia é a configuração actual desse processo de integração económica e política, que está incompleto e se encontra perante uma encruzilhada importante: devemos prosseguir pelo caminho do reforço da integração, com o crescente reforço do papel da Comissão Europeia e redução da autonomia dos Estados-Membros, ou por uma pausa (ou retrocesso) nesse processo, seguindo uma perspectiva nacionalista sobre o papel dos governos, dos estados e da soberania.

Na arquitectura da União, o Parlamento Europeu é a componente democrática e representativa dos povos. Essa natureza representativa tem sido o argumento para reforçar a sua importância no funcionamento da UE. Actualmente, o Parlamento Europeu tem poderes de supervisão e controlo democrático sobre todas as instituições da União, incluindo a Comissão, podendo levar à sua demissão, e partilha com o Conselho Europeu o poder legislativo e de aprovação do Orçamento.

A eleição do Parlamento Europeu é determinante para o futuro do projecto europeu, para a solução da contradição entre as tenções europeístas e nacionalistas com que a União se defronta – numa palavra, para resolver as dúvidas sobre o futuro da Política Externa e de Defesa Comum.

Nesta eleição seria mais interessante que os temas de campanha fossem centrados nas preocupações com que a União se defronta. Porque, em última análise, significa discutir a manutenção da Paz.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.