Segundo “não” da UGT deixa atado nó do pacote laboral

Órgão máximo da central rejeitou novamente, por unanimidade, a proposta de revisão laboral. ‘Outsourcing’ e banco de horas individual são alguns pontos do descontentamento. UGT diz estar aberta para negociar. Não chega, diz ministra. Está marcada concertação para depois do 1.º de maio.

Segundo “não” da UGT deixa atado nó do pacote laboral
A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho (C), à chegada para a sua audição perante a Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, Assembleia da República, em Lisboa, 22 de abril de 2026. MIGUEL A. LOPES/LUSA

O secretariado nacional da UGT rejeitou, por unanimidade, a proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo. É o segundo “não” à revisão do Código do Trabalho, apesar dos apelos do Presidente da República ao diálogo com vista a um acordo. Sem entendimento, e com o nó da nova lei laboral por desatar, o Governo dá nova oportunidade à central sindical, desafiando-a a apresentar uma “posição construtiva e clara”.

À saída de uma reunião que durou cerca de quatro horas, o o secretário-geral Mário Mourão justificou o novo chumbo: “Em relação à proposta que está hoje em cima da mesa, o secretariado nacional rejeitou a proposta, mas também ficou decidido que a UGT continua disponível” para negociar. Não basta a central sindical mostrar abertura para continuar o diálogo, respondeu nesta quinta-feira a ministra do Trabalho, indicando que haverá uma nova reunião da Concertação Social a 7 de maio, que servirá para encerrar esta fase negocial.

“A UGT terá de mostrar que quer efetivamente uma aproximação, e não continuar a ter pretextos para fazer fugas para a frente“, realçou a governante. Espera, por isso, que a central apresente uma posição “realmente construtiva e clara sobre os poucos pontos que ficaram em aberto no processo negocial”.
Só nesse caso, diz Rosário Palma Ramalho, o Governo estará disponível para um “último esforço”. Fica ainda o sinal do primeiro-ministro que, esta semana, considerou que “só razões de natureza mais política podem impedir qualquer um dos parceiros de subscrever o acordo”.

Ao contrário do que aconteceu na votação anterior, nesta, a UGT decidiu não fazer aprovar qualquer resolução, limitando-se a comunicar em conferência de imprensa o sentido de voto dos membros do secretariado nacional. Na véspera deste encontro, a expectativa era a de que a larga maioria dos perto de 90 membros do órgão máximo da central sindical rejeitasse novamente o pacote laboral, após o “não” por unanimidade a 9 de abril. Dois dirigentes tinham já avisado que iriam voltar a chumbar a proposta que saiu da Concertação Social. Primeiro foi Sérgio Monte, secretário-geral adjunto, que se manifestou contra o documento no sábado, a que se seguiu Carlos Alves, secretário executivo.

Aguarda-se agora que, após o 1 de maio (Dia do Trabalhador) seja colocado um ponto final no processo negocial que decorre há nove meses, com 56 reuniões e dezenas de alterações introduzidas ao documento inicial nas 200 horas de encontros no ministério do Trabalho.

O secretariado nacional da UGT rejeitou por unanimidade a 9 de abril a proposta da reforma laboral que não incluía os sete pontos consensualizados na reunião da mesma semana (6 de abril), mas sim a última proposta que o Executivo tinha deixado por escrito, a 24 de março — não continha as cedências que tinham sido feitas pelo Governo.
Só na reunião desta quinta-feira, foi levada a versão final (escrita) com os sete pontos negociados entre patrões e UGT, além da duração dos contratos (que são mantidos na proposta), o Governo deixou cair o banco de horas individual e ajustou a polémica reintegração após despedimento ilícito (ver texto ao lado).

Anteprojeto não inclui última contraproposta da UGT
Com a retoma das negociações, face ao apelo do Presidente da República após o secretariado nacional da UGT ter rejeitado a 9 de abril a proposta de alterações à lei laboral, a central sindical propôs ao Governo mudanças na jornada contínua e no banco de horas por acordo Dois dos pontos em que a central sindical pretendia que a ministra do Trabalho cedesse até à última reunião da Concertação Social, onde o Executivo levou a última versão do anteprojeto. Mas o documento que seguiu para o órgão máximo da UGT acabou por não incluir estas reivindicações (ver caixa).
O secretário-geral da UGT sinalizou ainda que as partes estavam profundamente afastadas na questão da extensão do tempo dos contratos a prazo e apesar de o Governo se ter comprometido a não mexer na duração destes contratos, a UGT alega que houve um recuo ao que já tinha acordado ao voltar a dar a possibilidade às empresas de contratar a prazo algum trabalhador que não tivesse nunca alcançado um vínculo definitivo.

Anteprojeto segue para o Parlamento
Com ou sem acordo, o Executivo apresentará a reforma laboral no Parlamento, sob a ameaça do veto político de Seguro ainda em campanha eleitoral. Caso se concretize significa que, então, o diploma seria devolvido ao Parlamento. Se voltar a ser aprovado, o veto político do Presidente da República será revertido.

Maria do Rosário Palma Ramalho voltou a garantir esta semana que “não será um documento igual ao anteprojeto porque contará com o enriquecimento dos contributos ao longo destes nove meses, dos parceiros, mas também da academia e da sociedade civil”.

O Governo sabe que terá de negociar com o Chega, uma vez que não contará com o PS. O partido liderado por André Ventura já apresentou publicamente cinco condições para viabilizar a proposta de revisão da legislação laboral do Governo e pediu que a negociação avance em breve para não se desperdiçar a maioria à direita no Parlamento. Segundo Ventura, o seu partido poderá viabilizar esta revisão no Parlamento desde que esta não prejudique as mães trabalhadoras, não incentive despedimentos discricionários, reveja as licenças de maternidade e a remuneração do trabalho por turnos, e assegure uma legislação laboral “flexível, mas não (…) selvagem”.

Relacionado

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Almerinda Romeira27 Ago
Empresa de recursos humanos Hays recomenda a necessidade de criar condições para um equilíbrio sustentável na relação entre as empresas e os seus profissionais: “As empresas que pretendem reter talento devem olhar para o bem-estar como parte da experiência profissional e não apenas como um benefício adicional".