João Rodrigues Pena, Empresário, Gestor e Consultor

Porque escolheram ficar e continuar o legado

Eis o testemunho de seis notáveis jovens sucessores – Tomás Jervell, Carlos Mota Santos, António Portela, Jorge de Mello, Ricardo Alves e Martim Guedes – e as razões porque resolveram continuar o legado da família.

“It’s normal that the young generation to have its own plans and ambitions, but they must realise what it means to continue the family legacy. It’s not just about profits – it’s about values, love, and sacrifice.”

Saliza Abdullah, Managing Director and CEO, BG Capital Holdings, Malaysia

A sucessão em grupos familiares determina a sua sobrevivência, mas, ao mesmo tempo, fascina-nos porque mexe com uma dinastia e com o poderoso imaginário social associado – como numa monarquia quando é escolhido um novo rei ou uma nova rainha. Os maiores monarcas da História sabiam que criar riqueza ou conquistar território de nada valia sem um filho varão capaz de reforçar o legado da casa real – e foram sempre uma inspiração para empresas familiares.

Há três anos a ARBORIS desenvolveu um estudo com a participação de dezenas de Presidentes dos maiores grupos familiares nacionais. Os resultados foram alarmantes: quase dois terços não comunica com a NextGen sobre carreiras ou sucessão e quase três quartos não têm processo de sucessão definido – porque não têm nenhum interesse, não sabem como fazer ou receiam fazer mal. E muitos sucessores potenciais optam por sair do País em busca de novas experiências de vida e carreiras mais aliciantes.

Não obstante, o estudo mostra que há líderes de empresas familiares que trabalham intensamente a sucessão quase desde a infância da geração seguinte. E isso conduziu no passado recente a uma geração de líderes muito bem preparados como Paula Amorim, António Rios Amorim, Salvador e João de Mello, Pedro Soares dos Santos ou Cláudia Azevedo, criando uma cultura virtuosa de reter e forjar grandes jovens líderes na geração seguinte.

A ARBORIS convidou seis destes jovens líderes para transmitir, nas suas próprias palavras, porque aceitaram o desafio de ficar, suceder ao líder e garantir a preservação do legado da Família. Todos acederam ao convite: Tomás Jervell, Carlos Mota Santos, António Portela, Jorge de Mello, Ricardo Alves e Martim Guedes. Partilhamos os seus testemunhos em ordem aleatória para preservar o anonimato.

  1. “As coisas aconteceram de forma natural, sem uma estratégia deliberada (ou partilhada…) ou um objetivo pré-definido. A ambição, as circunstâncias da empresa à data e a paixão pelo negócio familiar ditaram uma ligação com tal profundidade que nunca verdadeiramente abriram espaço a cenários profissionais alternativos”.
  2. “O Grupo sempre me estimulou e tive a ambição de o vir a liderar, muito pelo desafio de entregar à geração dos nossos filhos uma empresa melhor do que aquela que recebemos, porque foi assim que a geração anterior à nossa fez. Isso é o grande desafio, é estar à altura do legado que temos e fortalecê-lo no negócio e na família.”
  3. “Optei por suceder ao meu pai porque cresci dentro da empresa e acompanhei de perto o seu desenvolvimento. Esse percurso criou em mim um forte sentido de responsabilidade e um desejo de reforçar os laços familiares que sempre estiveram na base do projeto. Importa sublinhar que esta sucessão não foi forçada; foi uma escolha ponderada da administração, que entendeu que eu reunia as condições para dar continuidade ao legado da família. Por isso, apesar de me atrair a ideia de uma carreira internacional, fez-me mais sentido abraçar este desafio e contribuir para o futuro da empresa a partir de dentro.”
  4. “Apesar de ter começado a carreira fora de Portugal e de ter tido oportunidade de a continuar a desenvolver, na minha cabeça esteve sempre presente ingressar na empresa da família. Estar fora permitiu-me conhecer o setor e perceber que o apreciava muito mas encarei sempre a participação na empresa da família com perfeita naturalidade. É como se fizesse parte de mim. Tenho um respeito enorme pelo que os meus antepassados construíram, nomeadamente a transformação que o meu Pai imprimiu à empresa. Mas também pelas pessoas que trabalham connosco para melhor servir os (nossos stakeholders) em vários pontos do globo.”
  5. (…) comecei a carreira na banca de investimento, setor de que gostei muito e me proporcionou uma grande aprendizagem e desafio intelectual. (…) O desafio da empresa familiar foi-se tornando cada vez mais interessante e despertando a minha curiosidade. O meu Pai foi-me expondo aos vários desafios da empresa e percebi que podia ser muito interessante juntar-me à empresa da família, para mais num setor (…) muito rico e diverso ao nível dos vários desafios que proporciona e que exige uma grande capacidade relacional e de comunicação, mas também visão estratégica (…) Sendo uma empresa familiar, há também o desafio de crescer o negócio sem perder o cariz familiar e a proximidade com os colaboradores, clientes e restantes stakeholders”.
  6. “O facto de poder continuar o legado da família, preservando e desenvolvendo tudo o que tinha sido construído, pareceu-me o maior desafio que podia ter e aquele que maior satisfação pessoal e profissional me poderia dar”

O que nos ensinam estas palavras, o que têm estes casos em comum?

  • a capacidade de o líder instigar no futuro sucessor um sentido de superior envolvimento e responsabilidade com o legado, mesmo que o negócio ainda esteja a passar da primeira à segunda da segunda geração
  • O amor à família e a consciência de que tem uma vocação a cumprir e um dever emocional para com o seu Pai.
  • A certeza de que, não obstante ventos contrários que possam soprar, o negócio é aliciante: há espaço para crescer em novos mercados ou produtos, capital para comprar concorrentes noutras paragens e liberdade para montar a sua equipa de gestão executiva.

Mas atrás de cada um destes jovens está um líder especial, um líder que sabe que a sucessão lhe vai exigir um forte compromisso ao longo de toda a vida do potencial sucessor. Ele sabe que tratar o assunto como uma prioridade não vai chegar – sabe que tem de ser a sua primeira prioridade. E é assim que vai agir.

Relacionado