Vendas de carros elétricos chineses disparam mais de 70%

Os carros elétricos chineses vieram para ficar e já conquistaram o seu lugar ao sol. Pesam cerca de um quinto e viram as suas vendas subir muito acima do ritmo do mercado. Portugal vai ganhar mais duas marcas do Império do Meio, atingindo quase 30 no total.

Vendas de carros elétricos chineses disparam mais de 70%
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Olhados com desconfiança até há pouco tempo, os carros chineses vieram para ficar em Portugal e na Europa. É a grande marcha da indústria automóvel chinesa. As importações automóveis de Pequim para a Europa passaram das 300 mil para um milhão em 2025: um recorde.

Por cá, as vendas das marcas do Império do Meio dispararam mais de 70% no primeiro trimestre face ao ano anterior, para um total de quase 2.600 unidades no mercado de ligeiros 100% elétricos. Este disparo teve lugar a um ritmo bem acima do mercado, que cresceu 24% até março face a período homólogo. Já pesam 17% nas vendas deste segmento em Portugal. No ano de 2025, as marcas chinesas pesaram 10% nas vendas de 100% elétricos, pesando 5% no mercado total.

“Vai continuar. Mês a mês vai subindo a percentagem de vendas de carros chineses”, diz ao JE o secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).

“Há ainda espaço para novas marcas, mas há um momento em que se vai consolidar. Por agora, há uma tendência das vendas aumentarem no mercado”, destaca Hélder Barata Pedro.

A tendência alastra-se a toda a Europa, com os carros chineses a pesarem 7% nas vendas em 2025, uma subida de dois pontos percentuais face ao ano anterior, com mais de um milhão de automóveis a chegarem ao Velho Continente vindos da China, segundo a Associação Automóvel Europeia (ACEA).

A marca 100% elétrica chinesa mais vendida em Portugal foi a BYD, com mais de 1.260 unidades até março, um disparo anual de 24%, com uma quota de mercado de mais de 8%.

“Na BYD prevemos subir vendas todos os meses até ao fim do ano. Queremos liderar: é a nossa ambição”, diz ao JE Pedro Cordeiro, diretor da marca em Portugal.

Sobre as marcas chinesas no país, reconhece que existem “cada vez mais marcas”, sendo na sua maioria “propostas altamente tecnológicas e muito competitivas”.

O mercado de carros 100% elétricos continua a ser liderado pela norte-americana Tesla, com a BYD a ocupar a segunda posição.

Mas na totalidade do mercado nacional, a MG lidera as vendas entre as marcas chinesas: mais de 2.400 unidades, mais 70% no primeiro trimestre. A MG tem a vantagem de ter modelos elétricos, híbridos e híbridos plug-in, sendo mais forte nos dois últimos. Segue-se a BYD com uma subida de 30% para 1.700 unidades. A Xpeng fecha o pódio com um disparo de mais de 100% para 373 unidades no primeiro trimestre.

27 marcas chinesas no mercado nacional

O mercado nacional conta com um total de 27 marcas chinesas, número que já conta com as duas adições recentes: a Geely e a Zeekr, a marca premium da Geely.

No mercado total de ligeiros em Portugal, já pesam 8% nas vendas. E prometem não ficar por aqui.
Mas o que é que os portugueses vêem nestas marcas?

“Vêem uma relação qualidade-preço interessante. E são carros genericamente bem equipados. Logo de série, trazem muitas opções”, afirma, por sua vez, Alberto Godinho da Carby que vende 20 marcas automóveis em 60 stands em todo o país.

“O mercado foi muito rápido a perceber a qualidade dos carros chineses”, afastando a desconfiança inicial face aos carros chineses.

Por outro lado, destaca que o software destas marcas é “bastante evoluído. O português gosta da parte mais tecnológica e adere com facilidade”.

“As marcas ainda se estão a consolidar e continuam a aparecer novas marcas com alguma frequência. O mercado procura ofertas interessantes ao nível das baterias, autonomia e velocidade de carregamento. Tem espaço para continuar a crescer”, sublinha.

Mas se as marcas chinesas conseguem penetrar no mercado europeu, o mesmo não pode ser dito das marcas europeias, que afundaram mais de 40% no mercado chinês, com as vendas na casa das 214 mil unidades. Apesar de tudo, o mercado chinês continua a ser “importante” para os fabricantes europeus, devido à escala, apesar do aumento da concorrência das marcas domésticas, segundo a ACEA.

Olhando para a proliferação de marcas automóveis chinesas no país, o especialista em energia Pedro Sampaio Nunes destaca as mais-valias para os portugueses.

“Quanto mais concorrência houver, para o consumidor é bom. Sobretudo com a agressividade dos chineses, que tentam inundar o mercado com sobre-capacidade de produção no sentido de dominarem e terem um poder de mercado superior aos outros, como fizeram nos painéis fotovoltaicos, nas eólicas…”, afirma.

O ex-diretor da Comissão Europeia e ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação defende que o país deve atrair fabricantes automóveis chineses para Portugal.

“Seria uma parceria com os chineses para virem para cá com fábricas de automóveis. Isso seria de explorar, sem dúvida nenhuma. Como podemos competir com eles se são mais fortes? Devemos juntarmo-nos a eles e não lutar contra eles”, defendeu Pedro Sampaio Nunes.

Mas não é só na Europa, o relatório da ACEA destaca a “expansão agressiva de marcas chinesas” na América do Sul, apesar das pressões dos efeitos cambiais. Estas marcas começam também a inaugurar fábricas na América do Sul para escapar às tarifas.

Uma das marcas elétricas premium presentes em Portugal, é a sueca Polestar, detida pelos chineses da Geely. Este ano, atingiu o seu melhor primeiro trimestre de sempre em Portugal e a nível global.

“Estamos a conseguir consolidar o nosso estatuto enquanto marca de referência de automóveis elétricos Premium. Entrámos muito bem em 2026, um ano em que temos metas ambiciosas e no qual esperamos atingir o nosso quarto ano consecutivo de crescimento”, disse Miguel Pinto, diretor nacional da Polestar, que também tem produção na China.

Outra marca a chegar recentemente ao mercado nacional com alma chinesa foi a espanhola Ebro: produzida em Barcelona, mas com tecnologia da chinesa Chery.

China lidera com mais de 20 milhões de veículos vendidos

O mercado chinês é o maior a nível mundial, com mais de 20 milhões de veículos vendidos por ano, pesando um terço nas vendas globais.

O mercado era dominado pelas marcas estrangeiras, mas durante a pandemia da Covid-19 tudo mudou: a partir de 2021, as marcas chinesas começaram a crescer nas vendas. Em 2023, as marcas chinesas empataram com as estrangeiras; em 2024, superaram mesmo as vendas. Então, estas marcas já estavam a voar para a Europa e outros mercados, com EUA e Europa a imporem tarifas a tentarem deter esta grande marcha. No caso europeu, as tarifas não provocaram quebra nas vendas, com a oferta no mercado a continuar a ser atraente para os consumidores.

O Reino Unido foi o lar de várias marcas que ficaram para a história, mas a Rover e a Triumph desapareceram, e a MG, Mini, Rolls-Royce, Bentley ou Jaguar Land Rover são detidas por grupos estrangeiros, incluindo chineses, indianos ou alemães. Sinal dos tempos: o carro mais vendido no Reino Unido em março foi o SUV chinês Jaecoo 7.

Para a BYD, é nos momentos de crise que as pessoas adotam novas tecnologias, “As pessoas quando sentem na carteira, no final do mês, porque o combustível tradicional ficou mais caro… tendem a virar-se para novas tecnologias. Isto pode até acelerar a transição energética que estamos a viver”, disse ao JE o diretor-geral da BYD Portugal sobre os impactos da crise energética nas vendas de carros eletrificados.

“A Europa não pode ficar dependente. Não temos aqui grandes produções de petróleo… e estamos completamente dependentes dessas energias”, criticou Pedro Cordeiro.

“E Portugal é um bom exemplo com as renováveis. Conseguimos gerar aqui energia; podemos ser autossuficientes e não dependentes”, defendeu.

Questionado se o disparo nas vendas em março de carros eletrificados teve lugar devido à subida dos preços dos combustíveis, com a guerra no Médio Oriente, Alberto Godinho da Carby aponta que o crescimento já estava em curso.

“Essa tendência já existia nos primeiros meses do ano antes da guerra. O mercado de elétricos era o que crescia mais. Não acho que tenha tido um grande impacto”, afirmou.

Os preços do petróleo já dispararam 40% este ano e continuam na casa dos 100 dólares com a guerra a manter-se no Médio Oriente.

Olhando para o cenário, Pedro Sampaio Nunes considera que os “preços altos vão cair, logo que seja resolvida esta situação”.

Mas o especialista em energia defende que deve haver uma “migração agressiva para a motorização elétrica, porque essa, sim, permite-nos ter a possibilidade de produzir eletricidade para alimentarmos a mobilidade elétrica. Isso produziria uma redução de 70% a 80% das nossas necessidades de importação de matéria-prima energética, que é onde consumimos mais”, logo reduzindo a dependência de Portugal face ao exterior, com melhor capacidade de resiliência para futuras crises energéticas, que voltarão a existir, mal esta esteja terminada.

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