Sim, todos os países têm problemas e muitos desses problemas são complexos. Sim, a humanidade, desde 1990 até 2020, foi melhorando os seus indicadores de desenvolvimento humano e essa melhoria foi agora interrompida. Em 1973 alguns autores estimaram que 31,4% dos portugueses podiam ser considerados em condição de pobreza (dados de comparação difícil com as estatísticas actuais). Em 2021 este número passou para 22,4%, invertendo uma tendência decrescente que atingiu os 20% em 2020. Depois de uma pandemia e com uma guerra em curso, que parecendo longe não o é tanto assim e cujos impactos sentimos bem de perto, regressemos a 2007.
A economia mundial começava a ruir como um castelo de cartas. Muitas empresas de todas as dimensões em diferentes partes do mundo faliram. Milhares de pessoas perderam os seus empregos ou parte dos seus rendimentos e muitas outras empresas ficaram insolventes, perdendo todos os seus bens. Até hoje o sistema judicial pouco mudou na forma como lida com estes processos, criando condições para uma ainda maior desumanização e despersonalização. São pessoas, como que aprisionadas, muitas vezes para sempre, elas, que tantas vezes também são vítimas. E o que isto interessa agora, passados 15 anos?
Há quinze anos pouco se falou dos impactos na saúde mental, muitos persistindo até hoje, de perdas e perdas, de lutos difíceis, de adaptações brutais e forçadas na vida de tantos. Muitos sentiram perder a honra, outros a cara, outros os meios de subsistência e outros ainda a esperança, no limite entregando-se ou definhando com a própria vida. Nessa altura muito poucos podiam ter apoio de psicólogos (hoje estamos melhor face a esse tempo, mas não no SNS onde ainda pouco mudou para as necessidades crescentes). Poucos até reconheciam estar num sofrimento a que tinham de atender. Um banqueiro chegou a dizer “ai aguentam, aguentam”, referindo-se aos sacrifícios que os portugueses teriam que fazer. Fê-lo com desfaçatez e insensibilidade.
Em 2017, perante a tragédia dos incêndios em Portugal, um governante afirmava estupefacto numa reunião: “o país está a arder, pessoas morreram e só se fala de psicólogos?!?” Nessa altura, o país estava a acordar lentamente de alguns dos impactos da crise e recuperava alguma esperança e um pouco mais das condições de vida perdidas. Também nesse momento, as pessoas tiveram um sobressalto sobre a importância e necessidade que sentiam, particularmente nas zonas afectadas pelos incêndios, de cuidarem da sua saúde mental.
Em Dezembro de 2020, com o cansaço e pressão constantes duma pandemia que exigiu o máximo e para além do razoável aos profissionais do SNS, o primeiro-ministro afirmava que os portugueses não podiam estar cansados da pandemia, se não o que haveriam de dizer os profissionais de saúde. Agora, no prelúdio dos impactos socioeconómicos da guerra, os portugueses que tiverem cinto terão de o apertar. Não tem de ser o fim do mundo, mas o sofrimento de muitas pessoas aumentará com carências alimentares e habitacionais, e determinantes sociais importantes para a saúde mental estão a dar sinais de se deteriorarem.
O reconhecimento e aceitação dos problemas é essencial para os resolver. Mas não só. É também essencial para envolver e mobilizar as pessoas para a sua resolução e preparar para a sua prevenção. Tapar o sol com uma peneira não serve senão para ficarmos encandeados sem nos precavermos atempadamente. A arrogância ou defensividade de quem tem meios e exerce poder e a ausência de empatia, como a que é sentida nas expressões que acima cito, é causa de alheamento cívico, desesperança e poderá contribuir para populismos.
As pessoas, o que pensam e sentem, os seus sonhos e medos, são parte do que nos distingue na nossa humanidade e são nas suas atitude e comportamentos aquilo que nos faz socialmente prosperar, cooperar ou isolar e conflituar. O respeito pelas suas vidas exige informação fidedigna sobre o contexto, como tanto se apelou e tentou fazer durante a pandemia, humildade nas propostas apresentadas e confiança que juntos poderemos encontrar melhores respostas aos nossos problemas, obstáculos e desafios e apoiar os muitos que vão sofrer entretanto.
A expressão “vamos lá ver” vem infelizmente com frequência acompanhada de paternalismo e sobranceria, como se de seguida viesse “a óbvia verdade”. É uma bengala? Muitas vezes é. Mas pode não deixar de ter o significado acima, um significado para quem ouve… automaticamente. São estas formas de certezas absolutas, de ignorar o que se sente como se fosse uma fraqueza a corrigir e de que o valor máximo é o conseguir a todo o custo, seja lá com que “dor”, que também está na base do que se começou a designar por “quiet quitting” – as pessoas começam a “apenas” trabalhar o que é suposto e nada mais.
Chamemos o que lhe quisermos chamar, mas não é mais do que a reação adaptativa à necessidade de mais saúde e bem-estar a começar nos locais de trabalho. Vem na sequência da “great resignation”. Ao que parece as pessoas estão a mudar no reconhecimento das suas necessidades de bem-estar, prioridades de vida e na sua literacia em saúde psicológica, principalmente os mais jovens. Estão a fazê-lo muito rapidamente, como são acelerados os tempos de hoje.
“Vamos lá ver” se as nossas lideranças políticas e organizacionais também o conseguem fazer para bem de todos nós. Os cidadãos europeus priorizaram a saúde mental nas propostas sobre o futuro da Europa num sobressalto cívico e alerta aos decisores políticos de toda a Europa pela inactividade e desfasamento entre a necessidade dos cidadãos e as políticas públicas. “The winter is coming” e não deveríamos querer que os portugueses se resignassem, mas sim que reconhecessem o que está a acontecer e têm pela frente, aceitassem e estivessem em condições de mobilizar as suas competências para, em conjunto, melhor podermos ultrapassar mais este desafio.