Marcus Vinícius De Freitas, Professor Visitante, China Foreign Affairs University e Senior Fellow, Policy Center for the New South

Trump e a guerra na Ucrânia

A guerra da Ucrânia transformou-se num divisor de águas que pode encerrar abruptamente o domínio hegemónico norte-americano. Vários erros estratégicos têm tornado irreversível a trajetória de declínio.

O fatídico debate entre Joe Biden e Donald Trump evidenciou a falta de ideias, projetos e perspetivas dos dois candidatos para os Estados Unidos e o mundo. Os Estados Unidos, que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial e, particularmente, após o fim da Guerra Fria, deram o tom do desenvolvimento global e das relações internacionais, paulatinamente vêm-se transformando num país sem grandes propósitos (além da manutenção da hegemonia), inovações ou novas possibilidades.

Washington, que sempre foi um farol de esperança para muitos povos que viviam situações desesperadoras, perdeu o brilho. O país tem-se transformado numa potência ensimesmada e utilitária nos seus relacionamentos globais. Com isto, o poder de influência norte-americano – embora relevante – vai-se esvaindo pelos erros cometidos pela política errática daquele país e de seus quadros dirigentes.

O recente atentado a Donald Trump na Pensilvânia, provavelmente, consolidará a recondução do ex-presidente à Casa Branca. Trump, apesar de um primeiro mandato conturbado, logrou estabilidade global que seus antecessores e sucessor não conseguiram.

Com Trump, o tabuleiro mundial passará por novos ajustes. A questão da NATO, principalmente a Guerra na Ucrânia, deverá mudar substancialmente de rumo. Estimulada por Biden como uma guerra de procuração entre Estados Unidos, Rússia e China, ela tem sido um fiasco. Trump, que já reconheceu que a guerra não faz mais sentido econômico, fará prevalecer o pragmatismo trumpista. E Zelensky – e os apoiadores dele – terão de aceitar um acordo de paz muito aquém de suas expectativas.

Afinal, as medidas impostas contra a Rússia não funcionaram: a economia da Rússia cresceu, Putin foi reeleito e o Ocidente descobriu a resiliência daquele país. Aos poucos, os Estados Unidos se dão conta de que a guerra não fortalece sua hegemonia. Pelo contrário, só a dilui mais rapidamente, com um placar que favorece a Rússia e China substancialmente.

A guerra da Ucrânia transformou-se, portanto, num divisor de águas que pode encerrar abruptamente o domínio hegemônico norte-americano. Vários erros estratégicos têm tornado irreversível a trajetória de declínio. A retórica e posicionamento de Trump deverão insuflar um pouco mais o clima de tensão global, mas claro está que esta guerra não lhe interessa.

Trump encontrará um mundo muito mais inseguro e a instável em 2025. A culpa não é só de Putin, mas da falta de visão do Ocidente.

Relacionado