“This is a Big Deal. This is a real big deal.” Foram as palavras proferidas por Joe Biden na cimeira do G20 na qual foi apresentada o novo projeto do corredor Índia – Médio Oriente – Europa (IMEC). Apesar de cético quanto à capacidade de execução deste projeto, de facto ele é sintomático da tensão geopolítica vivida no mundo atual.
Se por um lado, este projeto pressupõe, desde logo paz e estabilidade no Médio Oriente, e em particular, a colaboração entre países que historicamente são adversários, ele também reflete a continuada fragmentação da economia mundial, crescente complexidade do comércio global e da multipolaridade de poderes e interesses dos principais atores políticos.
Estabelecer rotas marítimas e ferroviárias entre países como a Índia, Emirados Árabes Unidos e Israel, entre outros, só pode ser considerado desejável porque o projeto tem como ambição reduzir a importância e dominância do projeto chinês concorrente (Belt and Road Initiative – BRI). A nova rota comercial de 4800 km pretende estimular o desenvolvimento económico, a integração entre os países e o fornecimento de energia. O projeto propõe dois corredores separados – o leste que liga a Índia ao Medio Oriente e o Norte que liga o Médio Oriente à Europa.
Para complicar mais as relações entre países, o IMEC parece estar assente na ligação entre portos e linhas existentes, sendo que algumas dessas infraestruturas foram pagas e construídas ao abrigo da iniciativa chinesa BRI.
A meu ver, a apresentação deste projeto diz mais sobre a luta por soberania entre os EUA e a China do que propriamente a vontade de criação de alianças estratégicas com os países que assinaram este novo corredor da seda. O mundo ocidental tem feitos vários esforços no sentido de mitigar a sua dependência da China, mas este projeto, a avançar, teria proporções históricas únicas.
Se por um lado pode parecer um avanço em frente para o bloco ocidental, é de questionar qual será a reação chinesa a uma “provocação” destas? Num mundo atual preferia ver iniciativas que ajudassem à cooperação mais do que à fragmentação.
Para mim, existe uma certa ironia que a cimeira G20 tenha tido como slogan: “Uma Terra, Uma Família, Um Futuro”, mas que a mesma foi palco de várias reuniões e negociações paralelas que levaram, entre outros, à apresentação deste projeto. O perigo geopolítico é palpável e não me parece ser auspicioso. Estes projetos podem ser um “big deal”, resta saber se para o bem ou para o mal. Esperemos que seja para o bem!