“Temos um acumular de pacotes legislativos, mas não existe repercussão nos preços da habitação”, diz Gonçalo Antunes

O especialista em planeamento Regional da Universidade Nova de Lisboa não está otimista sobre o futuro do mercado da habitação. Pede mais agilidade aos municípios nos licenciamentos necessários e critica o sucessivo aumento dos preços das casas.

“Temos um acumular de pacotes legislativos, mas não existe repercussão nos preços da habitação”, diz Gonçalo Antunes
gonçalo_antunes_conferência_choque_habiração_1

O problema burocrático que os processos urbanísticos enfrentam nas autarquias são parte do problema no acesso real à habitação. Esta foi a ideia chave da intervenção de Gonçalo Antunes, coordenador executivo do Departamento de Geografia e Planeamento Regional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na conferência “O Choque na Habitação”, promovido pelo Jornal Económico. “O número de fogos concluídos por ano é bastante reduzido, cerca de 20 mil. Há um desfasamento temporal entre a construção e a colocação para arrendamento e isso condiciona as empresas e a sociedade civil a darem resposta. É um problema estrutural, os vários simplex urbanísticos têm ajudado, mas é preciso ir mais longe. Os municípios têm de ser mais ágeis nos licenciamentos necessários”, diz o especialista, que participou no painel “O Choque Processual”, juntamente com José Diogo Marques, sócio da KGSA Advogados.

Gonçalo Antunes pede maior flexibilidade nos instrumentos de gestão territorial e sublinha que o tempo que o Plano Diretor Municipal (PDM) demora a ser revistos está longe da atual realidade e isso cria “dificuldade”. “É preciso responder o mais depressa possível às mudanças da nossa Sociedade”, alerta. O especialista falou ainda da carência de recursos humanos nos municípios e que estão a “empencar” os processos. Além disso, os próprios autarcas, mesmo com pareceres de advogados, também “acabam por não tomar decisão nenhuma”.

Sobre o que podemos esperar para os próximos anos, Gonçalo Antunes não está otimista. “Os preços das casas continuam a bater recordes nos aumentos semestrais e anuais. Tenho curiosidade de saber onde o choque fiscal nos vai levar. Temos um acumular de pacotes legislativos, mas na verdade não existe repercussão nos preços praticados nos mercados de habitação”, conclui.

A conferência “O Choque na Habitação”, promovida pelo Jornal Económico, reuniu decisores políticos, especialistas do setor imobiliário, economistas, investidores e representantes do sistema financeiro para analisar as causas da crise habitacional e discutir soluções concretas para o futuro.

Relacionado

“Há 20 anos que estamos parados na concretização de soluções habitacionais”, alerta secretária de Estado da Habitação
Hub

“Há 20 anos que estamos parados na concretização de soluções habitacionais”, alerta secretária de Estado da Habitação

Rodolfo Alexandre Reis27 Jan
Patrícia Gonçalves Costa considera que esta problemática atingiu um "expoente máximo de visibilidade" e agravou-se devido ao fluxo de imigração para Portugal. A aposta principal passa por trazer para o mercado de arrendamento casas que se encontram num parque habitacional que atualmente está devoluto. "Os números apontam para cerca de 900 mil casas. Diria que 350 mil estariam em condições para ingressar no mercado de arrendamento", refere.