A única refinaria nacional garante que tem combustível para aviões para os próximos meses, disse hoje o Governo.
“A situação na Península Ibérica é bem mais confortável do que no resto da Europa e em muitas zonas do mundo”, disse esta sexta-feira a ministra do Ambiente e da Energia.
Maria da Graça Carvalho revelou que tem estado reunida com a Galp, a dona da única refinaria nacional em Sines, assim como com a gigante Repsol que conta com cinco refinarias em Espanha.
As refinarias ibéricas “produzem muito perto dos 100%”, isto é, produzem a quase totalidade da necessidade dos dois países.
“Estamos numa posição mais confortável, mas não estamos fora dos impactos”, apontando que os aviões que vêm de fora são abastecidos nos seus países de origem, podendo haver cancelamentos.
“Se existir escassez mundial, afeta-nos pela economia e as restrições das companhias aéreas. Mas estamos relativamente melhor do que os outros, sempre sujeitos”, acrescentou.
“A Galp na reunião que tivemos disse que aguentam perfeitamente até ao pico do verão… princípio, meio de agosto. Foi a indicação do CEO da Galp há dois ou três dias”,
A companhia obtém a matéria-prima, crude, do Brasil, não estando a ser afetada pelo estreito de Ormuz, em termos de petróleo bruto.
Mas obtém parte do jet fuel do Médio Oriente. “Neste momento, não se antecipam disrupções nos próximos meses, período em que o consumo está coberto pela produção própria da Galp, disponibilidades de ‘stock’ e importações”, disse a Galp à “Agência Lusa”.
A petrolífera garantiu estar a “adotar medidas operacionais que reforcem a segurança de abastecimento de Jet [combustível para aviação] e a avaliar soluções que contribuam para aumento de armazenagem”.
A ministra disse que a garantia que obteve da Galp é que há jet fuel “para vários meses. Mas se acontecer uma crise muito grande, somos sempre afetados”, com o problema a colocar-se só no “pico do verão”.
Já a easyJet disse ao JE que não estar “atualmente a registar qualquer perturbação no seu fornecimento de combustível. Tal como todas as companhias aéreas, a easyJet mantém um contacto contínuo com os seus fornecedores de combustível e com os governos relevantes para monitorizar de perto a situação”.
Por sua vez, a Comissão Europeia rejeitou hoje que exista atualmente o risco de escassez de jet fuel, apesar de reconhecer que o mercado está “apertado”.
Mas na quinta-feira, a Agência Internacional de Energia (IEA) adotou um tom mais alarmista, avisando que só existe jet fuel para seis semanas devido ao fecho do estreito do Ormuz e a guerra no Médio Oriente.
“Não existe escassez de combustível” na UE, garantiu a porta-voz comunitária Anna-Kaisa Itkonen, citada pela “Euronews”.
“Os voos da cidade A para a cidade B podem ser cancelados em resultados da falta de jet fuel”, disse o líder da IEA Fatih Birol.
Os preços do combustível para aviação dispararam 95% desde o início da guerra no final de fevereiro e com o encerramento do estreito de Ormuz por onde passava 20% do petróleo e gás consumidos no mundo, assim como jet fuel e gasóleo.
Como consequência do aperto de jet fuel, a neerlandesa KLM cancelou 160 voos em maio, a Lufthansa anunciou o fim das operações da sua subsidiária CityLine.
O Irão anunciou hoje a reabertura do estreito de Ormuz até ao final do cessar-fogo na próxima terça-feira, enquanto Teerão e Washington negoceiam um acordo de paz.
Mais de 60% das importações de combustível para aviões vem do Golfo Pérsico
Mais de 60% das importações de combustível para aviões vem do Golfo Pérsico. É do Golfo Pérsico que vem 50% do jet fuel consumido na Europa. Os preços mais do que dobraram desde o início da guerra no Médio Oriente, depois do Irão ter fechado o estreito de Ormuz. Portugal compra 25% do jet fuel que consome a países estrangeiros.
O Kuwait foi mesmo o maior fornecedor estrangeiro de Portugal de jet em 2024, com 241 mil toneladas. Na quarta posição, a Arábia Saudita forneceu 47 mil toneladas. Na segunda e terceira posições, surgem a Coreia do Sul com 112 mil toneladas e a China com 62 mil.
O país comprou 475 mil de toneladas equivalentes de petróleo (TEP) de jet fuel ao exterior em 2024, tendo consumido mais de 1,87 milhões de TEP, segundo os dados da Direção-Geral de Energia (DGEG).
Desta forma, 75% do jet consumido em Portugal tem origem na única refinaria nacional, a da Galp em Sines.
“Portugal pode ficar sem stocks de jet fuel daqui a quatro meses”, segundo uma análise da consultora Argus que analisou um cenário em que o país não consegue substituir o jet fuel que vinha da Golfo Pérsico.
O país é um dos que está mais em risco na Europa, a par do Reino Unido e da Dinamarca. Estes países estão “particularmente vulneráveis se o tráfego através do estreito de Ormuz permanecer efetivamente encerrado”.
No caso de Portugal, os stocks deverão ser suficientes para cobrir o período de primavera por a refinaria de Sines ter fechado para manutenção no final de 2025.
Em Portugal, as importações arrancam em meados de maio, principalmente do Médio Oriente. “Se o tráfego de petroleiros no estreito de Ormuz continuar sob restrições pesadas até lá, os stocks de jet fuel podem cair rapidamente”, alerta a Argus.
A aviação é crucial para o setor do turismo em Portugal. Em 2025, os aeroportos nacionais movimentaram mais de 73 milhões de passageiros, mais 5% face a 2024. O turismo é estratégico para a economia nacional, sendo responsável por 12% da produção de riqueza do país. Em 2024, contribuiu com 34 mil milhões de euros para a economia portuguesa.
A Ryanair já avisou para o risco de escassez de combustível de aviação na Europa no início de maio, caso a guerra continue e o estreito de Ormuz continue fechado.
“Os fornecedores de combustível estão sempre a olhar para o mercado. Não pensamos que haja alguma disrupção até ao início de maio, mas se a guerra continuar, corremos o risco de escassez de combustível na Europa em maio e junho. Pensamos que existe um risco razoável, entre 10% a 25% dos nossos abastecimentos estarem em risco em maio e junho”, disse recentemente Michael O’Leary em entrevista à “Sky News”.
Em Itália, a BP já emitiu um ‘notice to airmen’, um aviso às companhias aéreas, a alertar que vai haver restrições de combustível aos seus clientes nos aeroportos de Bolonha, Milão Linate, Treviso e Veneza, mas isto só afeta os clientes da companhia nestes aeroportos, havendo outras empresas a vender combustível.
Problema: o encerramento de refinarias na Europa ocidental está a colocar sob pressão o fornecimento de jet fuel.
Existem vários países onde a produção nacional cobre ou excede o consumo, como a Polónia ou a Grécia, ou que têm armazenamentos mais profundos, como a Irlanda, estão “melhor protegidos face a disrupções no abastecimento do Médio Oriente”.
“O conflito no Médio Oriente não deverá levar nenhum país europeu a ficar sem produtos petrolíferos totalmente porque os limites da guerra limitam apenas as importações. Mesmo os países com menos reservas têm algumas semanas de cobertura se perderem tanto a produção doméstica como importações. Mas os stocks nacionais podem cair para níveis baixos pouco confortáveis, levando a escassez localizada e a mudanças mais bruscas nos preços onde os stocks permanecem altos”, segundo a Argus.
A análise da consultora britânica destaca que os cenários têm em conta a possibilidade de o fornecimento do Médio Oriente não conseguir ser substituído.
Outros países debaixo de pressão são a Hungria (quatro meses), Dinamarca (seis meses), Itália e Alemanha (sete meses) e França e Irlanda (oito).
Os stocks normalmente caem na Primavera e no outono, com a paragem das refinarias para manutenção e sobem no verão quando aumenta a procura.
Mas as importações também flutuam sazonalmente, com grandes disrupções, a poderem afetar esta tendência.