Tiago Pimentel, Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Pai nosso que estás no Board: porque são alguns líderes tratados como deuses

Embora acreditar na sabedoria do topo alivie a ansiedade imediata das equipas, esta transferência acarreta custos severos, uma vez que a organização abdica da sua maturidade relacional e substitui a parceria adulta pela passividade infantilizada.

Nas organizações contemporâneas, o Board é frequentemente revestido de uma aura quase sagrada, operando a partir de uma distância que o afasta do quotidiano operacional. Esta dinâmica, em que o topo hierárquico assume o papel de um “pai organizacional” infalível, gera uma relação de dependência em que as equipas aguardam passivamente por orientações, recursos ou validações, em detrimento de uma postura de verdadeira corresponsabilidade laboral.

Do ponto de vista da Psicologia do Trabalho e das Organizações, esta divinização da liderança funciona como um mecanismo de defesa coletivo face à incerteza e à volatilidade do mercado. Em contextos de elevada ambiguidade estratégica, os colaboradores tendem a transferir a expectativa de controlo e proteção para um locus de controlo externo. Embora acreditar na sabedoria do topo alivie a ansiedade imediata das equipas, esta transferência acarreta custos severos, uma vez que a organização abdica da sua maturidade relacional e substitui a parceria adulta pela passividade infantilizada.

Quando a liderança se torna inquestionável, a empresa compromete significativamente a sua capacidade de aprendizagem, podendo dar espaço a uma atrofia cognitiva silenciosa. Sob este modelo, a segurança psicológica é a primeira vítima, pois o erro passa a ser interpretado como um pecado e a divergência aproxima-se da heresia. Consequentemente, instala-se uma cultura de autocensura sofisticada, onde as equipas antecipam a vontade das chefias, silenciam as más notícias e substituem o pensamento crítico por uma leitura puramente política dos sinais, mascarando o medo com um aparente alinhamento. Além disso, a perceção de que as decisões estratégicas ocorrem num plano inacessível fomenta o cinismo organizacional, fragiliza a motivação intrínseca e gera sentimentos de impotência.

Este fenómeno revela-se igualmente prejudicial para os próprios executivos, uma vez que o mito do líder-herói exige uma postura de infalibilidade e de invulnerabilidade emocional insustentável. Colocados num pedestal, os líderes enfrentam o isolamento e a pressão desmedida de suportar sozinhos a ansiedade coletiva de toda a estrutura, comprometendo o seu próprio bem-estar e saúde mental.

A sustentabilidade e a inovação das empresas modernas exigem, portanto, uma transição fundamental da fé organizacional para uma parceria estratégica assente na vulnerabilidade, na escuta e na gestão partilhada da incerteza. Para migrar da oração para o diálogo, a maturidade organizacional requer três movimentos essenciais. É crucial, em primeiro lugar, humanizar o Board através da redução da liturgia institucional, promovendo canais de comunicação bidirecionais mais diretos e transparentes. Em segundo lugar, urge descentralizar a tomada de decisão, autonomizando as equipas para que as respostas surjam nos níveis onde a informação prática é mais rica e o impacto é imediato. Por fim, torna-se imperativo institucionalizar o contraditório, validando a discordância construtiva e assegurando um ambiente seguro onde desafiar pressupostos seja visto como um contributo legítimo para o desenvolvimento do negócio.

Em suma, a eficácia organizacional moderna não se coaduna com fiéis obedientes, mas sim com profissionais maduros, autónomos e corresponsáveis. O Board precisa de descer do pedestal e sentar-se à mesa com as suas equipas, não para abdicar da sua autoridade, mas para a fortalecer através do diálogo, salvaguardando a resiliência estratégica da organização. A saúde mental das equipas, a qualidade das decisões e a sustentabilidade das organizações agradecem.

Relacionado

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Hays defende abordagem preventiva ao bem-estar no trabalho

Almerinda Romeira27 Ago
Empresa de recursos humanos Hays recomenda a necessidade de criar condições para um equilíbrio sustentável na relação entre as empresas e os seus profissionais: “As empresas que pretendem reter talento devem olhar para o bem-estar como parte da experiência profissional e não apenas como um benefício adicional".
8 programas para desfrutar da vinha e do vinho

8 programas para desfrutar da vinha e do vinho

Ana Pina19 Ago
Vindimar é o verbo. E saborear o vinho também. Setembro aproxima-se a passos largos e as cepas estão carregadas de uvas prontas a colher. Um bom pretexto para juntar família e amigos, e cruzar tradição, luxo e autenticidade. E gastronomia de excelência.