Vasco Colaço, diretor de negócios estratégicos da TIS- Consultores em Transportes, Inovação e Sistemas, refere que vai ser difícil Portugal cumprir com a meta de atingir a neutralidade carbónica até 2050, uma data que já foi alargada. “Estamos muito longe de ao nível dos transportes, que são uma das maiores fontes de emissão de CO2, atingirmos essas metas”.
O diretor de negócios estratégicos da TIS afirma que no setor em Portugal “falta concretizar os estudos em projetos e os projetos em obra”. Na sua opinião há muitos estudos e pouca concretização, apesar de neste momento existirem investimentos programados, como o novo aeroporto ou a linha de alta velocidade, e de existirem vários pedidos para realização de estudos na área dos transportes sustentáveis.
“A minha experiência nestas coisas diz-me que muitas destas ideias servem para alimentar debates e polémicas, e muitas vezes não se concretizam”, sublinha.
Para o diretor de negócios existe mais um problema neste setor, sendo este o principal desafio, que passa pelos preços base que são impostos nos concursos públicos. “Estes preços tornam difícil de cumprir com o objetivo dos estudos, e a desenvolvê-los com qualidade e competência”, salienta.
A TIS, uma empresa portuguesa que conta com 33 anos de vida, trabalha com todos os modos de transporte e desenvolve atividade um pouco por todo o mundo, tendo trabalhado já com a Comissão Europeia e já desenvolveu projetos em quase todos os continentes. Com foco na expansão internacional, a empresa ganhou agora o seu primeiro projeto na Costa do Marfim.
Atualmente a empresa está também a desenvolver um trabalho em Marrocos, que “é um país que tem imensas oportunidades e prevê fazer imensos investimentos na área dos transportes até 2030”, revela Vasco Colaço.
Primeiro projeto na Costa do Marfim
A TIS- Consultora em Transportes, Inovação e Sistemas foi escolhida para o desenvolvimento de um estudo para a implementação de um sistema de transportes públicos na segunda maior cidade da Costa do Marfim, Bouaké.
Este é o primeiro projeto da empresa no país africano e está a ser realizado em parceria com um fundo sueco, o Swedfun International, e com a empresa francesa, que marca presença no país, Artelia Costa do Marfim. O projeto conta com um financiamento de 600 mil euros, sendo que 180 mil vão ser para a TIS.
Ao Jornal Económico, Vasco Colaço, diretor de negócios estratégicos, revela que a oportunidade surgiu de um contacto pelo fundo sueco, “que tem como missão promover investimentos sustentáveis em países em desenvolvimento, combater a pobreza através de investimentos sustentáveis em países em desenvolvimento”.
O processo de seleção foi relativamente rápido, tendo a empresa sido pré-selecionada e mais tarde teve de apresentar uma proposta, que foi a selecionada. “Devo confessar, com alguma surpresa nossa, que fomos escolhidos, porque apesar de termos apresentado uma proposta com um parceiro local, sabíamos que estávamos a competir com empresas locais muito fortes”, salientou.
O estudo já está em desenvolvimento, tendo de estar finalizado em setembro deste ano. “Numa primeira fase foi necessário fazer uma caracterização do sistema de transporte atual, foram feitos levantamentos do que existia e do tráfego que existe. Depois foi feito um trabalho de diagnóstico e de análise e agora, depois de apresentados todos os resultados, foram apresentados três cenários, tendo a Câmara escolhido um para agora ser desenvolvido por nós”, referiu.
Os resultados do estudo mostraram que a oferta de transportes públicos “é pouco convencional. Uma grande parte da população desloca-se através de modos que não estão regulamentados ou estão muito pouco regulados”, revelou. O diretor de negócios partilhou que apenas 7% da população é transportada nos autocarros regulados.
“Um dos desafios que nós temos é perceber como é que, de forma gradual, transportamos mais pessoas através dos transportes convencionais”, sublinhou.
A empresa única empresa que hoje opera na cidade começou em 2021, tendo apenas uma cota de mercado de 7%, “há aqui um grande trabalho a fazer”.
Para além do estudo focar-se no desenvolvimento de sistemas de transportes públicos, vai fazer também uma avaliação de infraestruturas complementares, uma vez que a cidade também carece de paragens de autocarro, parques de material e manutenção dos autocarros. “Esta infraestrutura faz falta, uma vez que desde que em quatro anos já só há metade dos autocarros a circular”.
“Há uma série de equipamentos complementares que têm que ser feitos a par do desenvolvimento da estrutura da rede de operação”, salientou. Para além desta falta de infraestruturas o país, à semelhança de muitas cidades africanas, detém muita rede rodoviária em terra batida, pelo que deixa de ser possível os veículos circularem. “Apenas 20% da rede rodoviária é alcatroada”, referiu.
Esta percentagem faz com que a grande maioria dos habitantes se desloquem em transportes não convencionais. “A ideia aqui é desenvolver as infraestruturas que permitam, de uma forma progressiva, ir tendo uma maior cobertura geográfica da cidade, e que melhore as condições de espera da população”.
O desenvolvimento do estudo conta com um orçamento de 600 milhões, mas as obras necessárias e propostas pela TIS devem chegar a ter um custo de cerca de 200 milhões de euros, um valor que também inclui a compra de novos autocarros.