Há um êxodo crescente, dizem. Os angolanos fogem em busca de melhores condições de vida, afirmam. Famílias inteiras abandonam o país pela falta de condições de vida condignas e são longas as filas nas embaixadas e nos postos de emissão de passaportes…
O Eldorado preferencial é Portugal, por uma questão linguística, porém, o que muitos consideram uma nova oportunidade pode, por vezes, materializar-se numa desilusão.
Se quisermos elaborar um perfil do emigrante angolano, deparamo-nos com várias tipologias. Existem as crianças e jovens que deixam a casa dos seus pais e vão viver com familiares já residentes, para aprimorarem os seus estudos; os casais que optam por separar-se, ficando o marido a trabalhar em Angola e a mulher e os filhos a residirem no país de destino; e os que vendem tudo e investem numa vida no estrangeiro.
Os novos emigrantes têm licenciaturas e ocupavam cargos de relevância nas suas empresas. Argumentam que o que gastam para propiciar um ensino de qualidade para os seus filhos, somando ao custo da alimentação e do pagamento de água e luz (de cisternas e gerador), agravado pelas horas no trânsito, deixam-nos sem saída, optando por abandonar o país.
Porém, quando chegam não exercem funções similares, nem auferem o que ganhavam anteriormente, regozijam-se com a segurança da previsibilidade, mas descobrem que o trabalho é exigente, não há quem faça as tarefas domésticas, e que num mercado competitivo o que nos diferencia será certamente a nossa força. Mas, com tantos a fazerem tanto, o que é ser diferente?
A opção de viver longe do nosso país obriga-nos a inserir na nova sociedade, com a consciência de que temos deveres, responsabilidades e contributos, e de que o nosso papel é cooperar para uma simbiose de culturas, de nada servindo as celeumas com vários indignados porque um menino responde à tia de modo considerado por muitos desrespeitoso. O Mateus é fruto da sociedade em que está inserido, onde podemos exprimir a nossa opinião desde tenra idade, mesmo que a sua família tenha como cultura que o elemento mais velho não deverá ser confrontado, mesmo que não tenha razão…
A reflexão que considero pertinente partilhar sobre este assunto não se prende a uma análise supérflua sobre se os meus conterrâneos fazem bem ou mal em partir, e os motivos que os levam a fazê-lo. Creio ser mais interessante versar sobre outro ponto de vista, pois entre queixas e lamúrias sobre o que de mal vai por aqui, em Angola, a pergunta que não quer calar é: o que fazes tu para mudar?
Ser contestatário de rede social ou revú de almoço terá a sua importância, mas em alturas de empreendedorismo e diversificação económica, que tipo de transformação e influência fazemos para almejar uma mudança?
Quantos de nós estamos organizados em associações ou cooperativas que podem exercer pressão para resolução de questões profissionalizantes? Quem cria, a título de voluntariado, campanhas de recolha de resíduos ou constitui espaços para alfabetização de crianças desfavorecidas? Existirá uma real preocupação com a diminuição do trabalho informal, ou até nos dá um jeitinho não ter de sair do carro para comprar uma água fresquinha à beira da estrada?
Que estudos, debates ou colóquios, para além da identificação dos problemas, apresentam soluções com exemplos práticos?
Não acredito na invenção da roda, mas na aplicabilidade de boas ideias ao contexto real. Acredito na educação como fator de mudança e na união como motor de persuasão. E talvez se o olhar mais para o que nos une e o que podemos mudar em conjunto funcionasse, não precisaríamos de emigrar…
Os críticos dirão, e o que fazes tu? Respondo humildemente, escrevo com a expectativa de despertar consciências.