Armando Oliveira, Administrador-delegado Repsol Portuguesa

Mobilidade sustentável: é preciso olhar para o presente para assegurar o futuro

Precisamos de pensar no futuro, mas até lá, encontrar soluções no presente e para a diminuição das emissões no curto prazo.

A mobilidade é um dos principais focos de atuação quando se pensa em assegurar a transição energética nos próximos anos, e perante a supremacia de veículos a combustão, que continuam a representar uma fatia representativa da mobilidade em Portugal e na Europa.

A transição para uma mobilidade mais sustentável, como a mobilidade elétrica, é possível, mas para isso, é preciso olharmos com atenção para o presente e para o que podemos fazer hoje, já que ainda enfrentamos enormes desafios. A mobilidade elétrica implica ainda um grande investimento, e obriga-nos a considerar uma série de regulamentações, bem como passar por vários decisores políticos e governamentais, o que torna o processo particularmente desafiante.

Acreditamos que deste desígnio das últimas décadas todos fazem parte, da sociedade civil às empresas. Até porque, num momento em que se assinalou mais uma Semana Europeia da Mobilidade, é importante lembrar que uma mobilidade mais sustentável tem uma importância direta para a saúde da Economia e de todos nós.

Muito se tem falado da mobilidade elétrica como um dos caminhos para transição energética e para alcançar a neutralidade carbónica. Mas é necessário perceber que esta é uma solução de longo prazo, pois requer no imediato um grande investimento por parte do utilizador, e também das empresas, podendo exigir grandes reestruturações ao nível das infraestruturas e aquisição de novos veículos. Precisamos de pensar no futuro, mas até lá, encontrar soluções no presente e para a diminuição das emissões no curto prazo.

Em Portugal, os combustíveis já têm incorporado uma percentagem obrigatória de mais de 10% de biocombustível, por isso, e por não ser algo novo, queremos continuar a ajudar o País a fazer este caminho com soluções de impacto imediato e com efeitos a curto prazo.

Este ano, demos já passos nesse sentido, com a produção e comercialização de um combustível 100% renovável, produzido a partir vários tipos de resíduos orgânicos, principalmente provenientes da indústria agroalimentar, tais como óleos alimentares usados, e que está hoje disponível em quatro Estações de Serviço em Portugal. Este combustível é compatível com os motores a combustão mais recentes, e por isso, não requer grandes mudanças estruturais nos veículos.

Além de poder ser uma alternativa para o transporte pessoal, e com uma redução imediata das emissões, já que são combustíveis com zero emissões líquidas, é uma alternativa para os setores que têm mais dificuldade em fazer esta transição, como por exemplo os transportes de pesados de mercadorias e a aviação. Nestes setores, a eletrificação, tal como a conhecemos hoje, ainda não garante autonomia suficiente para dar resposta aos quilómetros percorridos e por isso exigirá, desde logo, um grande investimento por parte das entidades públicas e privadas.

Também para a maioria das famílias, que continuam sem ter capacidade para trocar para um veículo elétrico, estes combustíveis 100% renováveis vão ter um papel preponderante, na medida em que permitiram garantir uma transição energética igualitária e justa.

Quer isto dizer que, ainda que seja essencial continuar a apostar no desenvolvimento das tecnologias que irão permitir a eletrificação de todos os meios de transportes, estamos cientes de que o motor a combustão vai continuar a ser uma realidade por muitos anos, pelo que o nosso foco deve estar em aplicar soluções alternativas o mais prontamente possível, se queremos fazer frente às alterações climáticas.

Neste caminho para a transição energética, cada um tem um papel essencial a cumprir, por isso a mudança de hábitos e cultura dos utilizadores é essencial. Mais deslocações em transportes públicos, bicicletas ou até mesmo a pé, sempre que possível, são pequenas escolhas que podem fazer grandes diferenças.

Assim, é verdade que temos ainda um longo caminho a percorrer, mas estamos comprometidos em fazer parte de um desígnio comum e de um compromisso: trabalhar em conjunto para impulsionar a inovação e oferecer alternativas renováveis e de baixo carbono, em conjunto com os restantes setores de atividade e a comunidade em geral, no sentido de chegar mais perto da neutralidade carbónica, assegurar a preservação do meio ambiente e tornar a mobilidade cada vez mais sustentável.

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