Reforma laboral cai no Parlamento com Chega a votar ao lado da esquerda

O suspense adensou-se antes da votação programada, com o Chega a pedir a suspensão temporária dos trabalhos, mas nem assim o Governo chegou a entendimento com o partido de André Ventura para aprovar a reforma laboral. Montenegro acusou o Chega de se aliar à esquerda, enquanto Ventura rejeita ser muleta do Executivo.

Reforma laboral cai no Parlamento com Chega a votar ao lado da esquerda
O presidente do Chega, André Ventura (E), conversa com o deputado do Partido Social Democrata (PSD), Hugo Soares (D), durante os trabalhos da primeira sessão plenária da XVII Legislatura, na Assembleia da República, em Lisboa, 03 de junho de 2025. Os 230 deputados eleitos nas legislativas de 18 de maio iniciam funções na primeira sessão plenária da XVII legislatura. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Após meses de negociações, avanços e recuos, troca de argumentos em praça pública e duas greves gerais, a proposta de reforma laboral do Governo acabou chumbada no Parlamento, com o Chega a votar ao lado da esquerda e a rejeitar o conjunto de mais de 50 alterações. Apesar do chumbo parlamentar, o processo legislativo segue agora para o Presidente da República. António José Seguro terá de decidir entre promulgar o diploma, solicitar a fiscalização preventiva da constitucionalidade ao Tribunal Constitucional ou devolvê-lo à Assembleia da República para reapreciação.

O desfecho esteve em aberto até aos momentos que antecederam a votação, com o Chega a negociar até à 25ª hora, após a suspensão dos trabalhos por 30 minutos. As exigências colocadas por André Ventura acabaram, entanto, por não ter colhimento junto do Executivo de Montenegro, com o primeiro-ministro a recusar a ceder em matérias consideradas essenciais pelo partido, nomeadamente o recurso ao outsourcing, as regras do despedimento e, sobretudo, a descida da idade da reforma.

“Portugal perdeu uma grande oportunidade de ter uma economia mais competitiva, um mercado laboral mais dinâmico e ser mais atrativo para captar investimento”, argumentou o líder de Governo, acusando o Chega de querer “colocar em causa a sustentabilidade das pensões”, uma questão “sagrada”. Montenegro garantiu ainda que havia proposto a criação de uma comissão parlamentar para estudar a descida das pensões, de forma a não avançar com a medida “de forma precipitada”, mas o partido de André Ventura mostrou-se irredutível.

O primeiro-ministro acusou ainda os “extremos” de se terem “juntado”, numa crítica à posição do Chega junto dos partidos à esquerda, e considerou que “aconteceu no Parlamento o mesmo que já tinha acontecido na concertação”.

“Chegámos a entendimento sobre quase tudo, sobre a esmagadora maioria dos assuntos que mereciam apreciação dos deputados. Por razões políticas, não foi possível um entendimento na concertação e, agora, no Parlamento”, caracterizou.

Após o chumbo, o líder parlamentar do PSD disse que o único gesto que vai ficar na memória dos portugueses é “André Ventura de punho fechado para a CGTP”. Hugo Soares garantiu que “o PSD levou este processo a sério” quer nas negociações na concertação social, quer no Parlamento, acusando o Chega de votar contra a versão da reforma laboral que “proclamava” na discussão na generalidade do diploma, na véspera da sua votação.

“À 25ª hora o Dr. André Ventura quis colocar em causa a sustentabilidade da Segurança Social”, acusou o social-democrata, vincando que as pensões dos portugueses “não são motivo de brincadeira”.

Na réplica, Ventura recordou que o Chega sempre colocou como condição para aprovar a lei laboral a descida da idade da reforma, vincando que lei laboral apresentada “continha e contém vários erros para quem trabalha e investe e sobretudo para as famílias portuguesas”.

André Ventura declarou, na rede X, que o Chega “não se vende nem verga”, salientando que a única coligação do partido “é com os portugueses”. Segundo o líder do partido, o Executivo terá de aceitar medidas como a proteção dos trabalhadores, a descida da idade da reforma e o combate às “reformas milionárias” se quiser contar com o apoio do Chega.

Negociações até à última hora

O Chega acabou por votar juntamente com o PS, PCP, BE, PAN, Livre e JPP na rejeição do pacote laboral que tanta tinta tem feito correr e tem alimentado debates, tanto na esfera política, como na sociedade civil. Em sentido inverso, PSD, CDS-PP e IL votaram a favor do documento.

Minutos antes de ser votada a proposta do Governo para a reforma laboral, o Chega pediu a suspensão dos trabalhos por 30 minutos. A expectativa era bastante, dado todo o processo negocial que culminou esta sexta-feira, mas o pacote de mais de 50 medidas acabou rejeitado.

Perante o resultado da votação, as galerias parlamentares irromperam em êxtase, com o líder da CGTP, Tiago Oliveira, visivelmente emocionado com o desfecho. Recorde-se que a central sindical desde cedo se opôs às alterações, tendo mesmo avançado com duas greves gerais para sublinhar a sua vincada oposição. No entanto, a manifestação de satisfação resultou na expulsão dos presentes, que violaram os regimentos da Assembleia, explicou o presidente Aguiar-Branco.

Um mês após o Executivo ter enviado para o Parlamento a proposta de revisão da lei laboral, o diploma começou a ser discutido esta quinta-feira no Parlamento. Com o pré-anunciado chumbo do PS, a reforma laboral estava nas mãos do Chega, que já havia considerado a proposta atual negativa, mas mostrando abertura para negociar com o Executivo.

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“Procurei até à última hora que fosse possível chegar a um consenso. O que não posso, porque a consciência não permite e porque os eleitores também não o permitiriam nem aceitariam, é trair a visão fundamental que temos de que uma reforma, ou dita reforma laboral, possa transformar-se num instrumento de perseguição sobre quem trabalha e destruição da economia portuguesa”, afirmou.