Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

Inteligência Artificial e as organizações portuguesas: quo vadis?

A IA é hoje inescapável e tem de haver agilidade por parte das organizações em Portugal. Ao escrever este artigo, esta ideia sobressaiu: a reforma laboral em Portugal não se vai fazer por negociação, mas por choque tecnológico.

Desde janeiro de 2026 que sou um dos membros fundadores de um grupo de trabalho sobre Inteligência Artificial (IA) e governance, liderando também um dos quatro workstreams, dedicado ao estudo e recolha de use cases de aplicação da IA a workflows mais ou menos complexos de governance em multinacionais. Os membros fundadores são cerca de 20 pessoas que representam multinacionais, organizações de profissionais como o Institute of Directors, reguladores e auditoras. Durante estes seis meses de trabalho, avançámos consideravelmente e muitos desenvolvimentos de grande relevo estão no horizonte. Sem entrar em detalhes, deixo aqui três ideias importantes.

Estabelecer as estruturas para o governo da IA

A IA promete tornar capacidades existentes na empresa mais eficientes, aumentar outras e criar novas. Em muitas organizações, a IA começou a ser utilizada de forma ad hoc por empregados ou líderes intermédios curiosos e pioneiros. Esta abordagem fragmentada e emergente criou riscos importantes, levando a que muitas empresas colocassem um embargo à criação de agentes na empresa, até que fossem criadas as estruturas e um quadro estratégico que garantissem controlo e direção aos esforços de implementação da IA. A IA é já um item permanente na agenda dos boards das empresas, e os riscos estão distribuídos por diferentes committees especializados. Por exemplo, os agentes criados em qualquer parte da empresa, depois de devidamente autorizados, são registados num asset register, existindo uma monitorização regular, report de problemas e mudanças na natureza do agente, bem como indivíduos específicos responsáveis pelo agente (geralmente mais do que um).

Adoptar uma abordagem estratégica e holística desde o início

Um erro comum das abordagens à IA é pensar na automação ou integração da IA processo a processo, ou função a função, sem considerar, de forma mais fundamental, como é que a IA está a reconfigurar o sistema sociotécnico e a mudar as bases da vantagem competitiva. Considere redesenhar a organização do trabalho de forma mais holística, para uma interação homem-máquina. Se não existir na empresa ninguém verdadeiramente especialista em “desenho organizacional”, sugiro que contrate um rapidamente. Especialistas em estratégia, tecnologia e (re)desenho organizacional são fundamentais.

Desenvolver capacidades de gestão da mudança superiores

No inquérito de satisfação dos empregados, a gestão da mudança surge como uma área onde a empresa exibe dificuldades? Os projetos de mudança falham com frequência ou arrastam-se no tempo? Se a resposta a estas perguntas é “sim”, então, antes de pensar na IA, comece por melhorar as capacidades da empresa na gestão da mudança. Nesta fase ainda nascente e acelerada da tecnologia, convém encorajar ciclos de experimentação rápidos e controlados dentro da organização, com o intuito de aprender e melhorar, canalizando energias para os aspetos que resultam. Em muitas organizações, os empregados são já treinados em IA e encorajados a apresentar use cases nas suas áreas, numa espécie de shark tank.

Os trabalhos do AI Working Group seguem a grande velocidade. A IA é hoje inescapável e tem de haver agilidade por parte das organizações em Portugal. Ao escrever este artigo, esta ideia sobressaiu: a reforma laboral em Portugal não se vai fazer por negociação, mas por choque tecnológico. Vai ser bem mais profunda e, se não estivermos preparados, bem mais dolorosa.

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