Paulo Estêvão, Líder Parlamentar do PPM Açores

Impedir a eternização do PS no poder

A experiência açoriana, que acabou com 24 anos de poder ininterrupto do Partido Socialista, constitui a única resposta possível. O resto é tacticismo e retórica vã.

O quadro partidário português foi, durante décadas, o mais estável da Europa. Desde 1976, não se contabilizando aqui a presença dos dois grandes partidos portugueses nos governos provisórios entre 1974 e 1976, que o PS e o PSD se revezam no poder, numa reedição do “rotativismo” monárquico do século XIX e início do século XX.

No entanto, nas três últimas décadas, entre 1995 e 2023, o Partido Socialista governou Portugal durante 22 anos. Tendo em conta a maioria absoluta com que conta na Assembleia da República até 2025, o Partido Socialista somará, com muita probabilidade, 24 anos de poder em 2025. Ou seja, a alternância política no poder, que caracterizou a etapa inicial do atual regime constitucional, está claramente colocada em causa.

A criação da “geringonça” (2015) provocou alterações importantes. Até essa data, a vantagem da direita era a sua capacidade para congregar esforços. Isso permitiu a formação, desde 1979, de vários governos de coligação de centro-direita.  Pelo contrário, a esquerda apresentava-se sempre extremamente balcanizada e envolvida em lutas intestinas, em que imperava o mais fanático sectarismo.

Tudo isso mudou em 2015. Para barrar o acesso do PSD ao poder, a esquerda nacional está, atualmente, na disposição de juntar esforços e cooperar. Nunca tinha sucedido antes de 2015. É certo que essa colaboração se assemelha a um teatro de sombras chinesas, em que nada do que parece é material e real. Nos bastidores das alianças de esquerda abundam a cicuta, os rancores e os ódios de estimação. Trata-se de um ambiente fastiento, irrespirável mesmo para alguém com os privilegiados pulmões de António Costa.

Esta nova predisposição da esquerda, o enfraquecimento do CDS/PP a nível nacional e a ascensão de dois partidos sucessórios, como o CHEGA e a Iniciativa Liberal, alteraram as regras do jogo. Agora é o PSD que está muito condicionado pela política de alianças/coligações e pelos mesmos vetos cruzados que condicionaram, durante décadas, a relação entre o PS e o PCP.

Tendo em conta estes condicionalismos, a questão central é saber como é que se evita que o Partido Socialista, com ou sem o apoio da esquerda radical, perdendo ou ganhando as eleições, se eternize no poder em Portugal. A experiência açoriana, que acabou com 24 anos de poder ininterrupto do Partido Socialista, constitui a única resposta possível. O resto é tacticismo e retórica vã. A realidade acabará por se impor. Impõe-se sempre.

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