O estado da arte sobre rodas. Ou melhor, a arte e a história dos EUA vista pela lente de Donald Trump e seus acólitos. E já rola pelas estradas norte-americanas, a bordo de seis Freedom Trucks. No ano em que o país celebra o 250.º aniversário da assinatura da Declaração da Independência, Trump troca as televisões pela highway para levar a sua mensagem ao país. O que mostram os ditos camiões? Uma versão muito específica e “patriótica” da história americana e “como 13 colónias declararam independência, derrotaram o maior império do mundo e garantiram a soberania americana há 250 anos.” A tónica não engana. Os êxitos e conquistas do país são vangloriados, enquanto o impacto da escravatura e de outras formas de discriminação são esbatidos.
A imprensa norte-americana diz tratar-se de uma exposição que pretende ser interativa. Há, inclusive, um questionário. “És Leal ou Patriota?”. Cereja no topo do bolo: é possível assinar digitalmente a Declaração da Independência, conversar com George Washington (cortesia da IA), conhecer um conjunto de objetos históricos disponibilizados pelo American Journey Experience – um museu localizado em Irving, Texas, que tem como diretor o comentador político conservador Glenn Beck – … e tirar fotografias ao lado de “heróis americanos”.
A imprensa não-alinhada com a agenda da administração Trump chama-lhe “propaganda”. Em prol de uma agenda nacionalista conservadora cristã branca. Devaneio? Não propriamente. A leitura tem por base o texto de introdução à exposição itinerante, que proclama que os “princípios fundamentais da América estão enraizados nos valores ocidentais e judaico-cristãos”. Se a isto somarmos a estreita ligação dos organizadores com a comunidade evangélica, temos uma receita garantida para fazer disparar a apreensão.
Em terra e no ar
A Freedom 250 é a organização que lidera a celebração dos 250 anos da América e, segundo o “New York Times”, foi instruída pelo DOI – Departament of the Interior para usar a Freedom 250 como “marca principal” em todas as comunicações governamentais sobre eventos relacionados com esta efeméride. O mesmo jornal noticiou recentemente que quem doar um milhão de dólares à organização, será convidado para uma festa privada com direito a uma sessão fotográfica com Donald Trump.
A ideia original nasceu sobre carris e dava pelo nome de Freedom Train. Uma exposição itinerante dedicada à história dos EUA que circulou pelo país entre 1947 e 1949. Foi ela que serviu de inspiração para a iniciativa atual, a par do American Freedom Train, que assinalou as celebrações do Bicentenário de 1976.
O presente avatar foi anunciado em setembro pelo Institute of Museum and Library Services (IMLS). Começou com um orçamento de dez milhões de dólares e, desde então, já atingiu os 14,1 milhões, financiados pelos contribuintes. Parêntesis. Os candidatos aos subsídios do IMLS no próximo ano terão de obedecer às ordens executivas de Trump sobre cultura, já fez saber a instituição. A digressão está a ser organizada pelo Departamento de Transportes dos EUA, que criou o seu próprio site dedicado à Freedom 250. A PragerU, uma plataforma educativa conservadora de Oklahoma, e o Hillsdale College, uma universidade cristã do estado do Michigan, organizaram a exposição gratuitamente. Mais. As celebrações estendem-se ao céu americano. Como? O Freedom Plane já iniciou o seu périplo em Kansas City, levando a bordo cópias de nove documentos fundacionais da nação, cortesia dos Arquivos Nacionais.
Aqui chegados, chamamos Thomas Jefferson à colação. Durante os seus dois mandatos, o 3º presidente dos EUA inculcou nas instituições americanas os princípios conducentes à formação de uma sociedade democrática, baseada nos pequenos proprietários, livres e em igualdade de direitos e obrigações. O que pensaria Jefferson desta abordagem aos 250 anos da nação americana?