O secretário-geral da ONU, António Guterres – de quem se diz que pode vir a ser um dos candidatos à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa – conseguiu, com as suas declarações sobre Israel, dividir o país na fronteira do costume: entre a esquerda e a direita. Nada que o próprio secretário-geral não devesse ter antecipado: afinal, é exatamente essa a divisão que ocorrer quando o assunto tem a ver, qualquer que seja o tema em particular, com Israel.
Assim, e segundo a agência Lusa, o presidente do Chega defendeu que António Guterres “não tem condições políticas” para continuar no cargo e quer que a Assembleia da República condene as declarações de António Guterres. Evidentemente que isso não acontecerá – a maioria absoluta do PS sempre há-de servir para alguma coisa – mas a tónica da direita nacional estava lançada, mais uma vez com o comando do Chega.
André Ventura manifestou “incómodo e insatisfação” com as palavras do secretário-geral da ONU, que afirmou ser “importante também reconhecer que os ataques do Hamas não aconteceram num vácuo”, e que “o povo palestiniano tem sido submetido a 56 anos de ocupação sufocante”. Para além de serem verdade, as declarações só podiam servir para acender mais um rastilho de discórdia, e Guterres não pode dar-se ao ‘luxo’ de ficar “chocado” com uma reação tão imensamente óbvia. A alternativa parece a única opção: Guterres sabia que no que as suas palavras iriam resultar.
Mas, valha a verdade, a reação de Marcelo Rebelo de Sousa – que desta vez, como faz de vez em quando, optou por declarações que soaram a uma espécie de reação supra-partidária – recentrou a baralhação política: Guterres limitou-se a seguir o roteiro da Carta da ONU. Nem mais: os desentendimentos entre a linha de raciocínio da ONU – claramente centradas desde a primeira hora na criação de dois Estados – chocam de frente com as opções estratégicas e de segurança de Israel.
A Iniciativa Liberal alinhou com o Chega e condenou as declarações “politicamente insensatas e diplomaticamente catastróficas” do secretário-geral da ONU, considerando que “afundou as Nações Unidas no pântano” e lhe retirou capacidade de mediar o conflito. O governo do reino Unido, liderado pelo também liberal Rishi Sunak, acha exatamente o mesmo.
Do outro lado da fronteira ideológica, o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros já se solidarizaram com o secretário-geral da ONU. Ainda segundo a Lusa, António Costa apressou-se a enviar uma mensagem de solidariedade ao secretário-geral das Nações Unidas, onde considerava que, perante a “tragédia humanitária”, tem sido “exemplar” na afirmação humanista do Direito Internacional.
Por seu turno, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gomes Cravinho, afirmou que Portugal “compreende e acompanha” a posição do secretário-geral sobre o conflito entre Israel e o Hamas, “Compreendemos e acompanhamos inteiramente a posição de António Guterres, que foi inequívoco quando condenou o terrorismo do Hamas, que é absolutamente inaceitável. Foi absolutamente cristalino na análise que fez”, afirmou à Lusa.
À esquerda do PS ouviram-se principalmente aplausos. Os jornais deram nota de que o líder parlamentar do Bloco, Pedro Filipe Soares, afirmou que “há uma deriva irracional do Governo de Israel que quer dar uma lição à ONU, demitir António Guterres e negar vistos a representantes e funcionários da ONU”. “Quando a ONU passa a inimiga, quais são os valores que se pretendem impor ou as atrocidades que se querem cometer?”, perguntou.
“Face ao genocídio, são poucas as vozes que se ouvem pela paz e pelo direito internacional”, disse Mariana Mortágua, a líder do Bloco, instando o Governo a sair em defesa do secretário-geral da ONU – o que aconteceu.
O PCP aplaudiu as palavras de Guterres: “consideramos que Portugal, ao nível da Presidência da República, Governo, Assembleia da República, tem de ter um posicionamento numa perspetiva de encontrar uma solução de paz, de cumprimento das resoluções das Nações Unidas e de respeito pelo direito da Palestina. As palavras do secretário-geral das Nações Unidas são neste sentido”, disse a líder parlamentar comunista, Paula Santos.
Mais equívoca foi a reação do PSD. Numa primeira instância, o seu líder ensaiou uma fuga para a frente: instado a comentar o assunto à saída de um encontro sobre saúde, esquivou-se a responder diretamente. Mais tarde, seria o vice-presidente Paulo Rangel a engendrar uma posição oficial dos social-democratas. “A clarificação que fez o secretário-geral das Nações Unidas, o nosso compatriota António Guterres, é uma clarificação importante”, disse, com um pé do lado esquerdo da fronteira. Mas não conseguiu subtrair-se a considerar “infelizes” algumas declarações, colocando o outro pé do lado direito da mesma fronteira.
Quanto aos comentadores, acantonaram-se todos nos seus próprios quadros ideológicos – o que claramente dá nota inequívoca de que Israel não é um assunto inócuo e não será nunca um tema que possa ser ‘extraído’ do quadro geral das ideologias.