O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o líder chinês, Xi Jinping, encontraram-se pessoalmente esta quarta-feira e, independentemente do que tenham dito ou acordado, o encontro é só por si suficiente para deixar o planeta um pouco mais descansado em termos da sua própria sobrevivência. Se todos os males têm também consequências um pouco mais positivas, esta é a consequência positiva da guerra na Ucrânia: permitiu identifica quem é que manda a leste – depois de a Rússia se ter subalternizado ao poder de Pequim – transmitindo à Casa Branca a necessidade de os dois países terem canais de diálogo abertos.
Os críticos dizem que é o regresso ao mundo bipolar, o que não deixa de ser verdade. Mas o ‘bipolarismo’ tem pelo menos a virtude de identificar sem margem para dúvidas quem é o interlocutor autorizado de um lado e do outro de uma fronteira que nunca deixará de existir. Para além da guerra na Ucrânia, Pequim soube chamar para debaixo da sua ‘asa diplomática’ os principais países do Islão (mesmo que eventualmente esse entendimento seja circunstancial e passageiro) e o numeroso de países anteriormente conhecidos por ‘terceiro mundo’ (agora o Sul Global). Neste quadro, o acordo firmado entre o Irão e a Arábia Saudita e o crescimento da importância estratégica dos BRICS (ambos com o patrocínio claro de Pequim) convenceu Washington de que a China é em definitivo o ‘comandante do outro lado’. E que por isso convém esquecer que algum dia (recentemente) cometeu a gafe de identificar o Império do Meio como ‘O’ inimigo. Talvez um dia destes a NATO venha também a recentrar o seu discurso nesta matéria.
De concreto, o encontro – que se deu no quadro de uma cimeira do grupo de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC) na Califórnia – concluiu pela necessidade da retoma das comunicações entre militares, que a China interrompeu depois de a então presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, visitar Taiwan em agosto de 2022. Vale a pena recordar que o próprio Joe Biden aconselhou Pelosi a abster-se de semelhante viagem, mas não foi ouvido.
“Estamos de volta à comunicação direta e clara”, disse Biden, citado pela imprensa norte-americana. “Concordamos que cada um de nós pode atender o telefonema diretamente e seremos ouvidos imediatamente”. Qualquer semelhança com a antiga ‘linha vermelha’ que ligava a Casa Branca ao Kremlin não é pura coincidência.
Mas o encontro ficou também marcado pela evidenciação de que os dois países continuam a ter desconfianças entre si – o que serve para identificar que o encontro foi mais que mera cortesia diplomática. Biden insistiu que Xi Jinping é um ditador (apesar de depois ter tentado uma saída airosa) e o presidente chinês acusou o seu homólogo norte-americano de não perceber o quadro histórico das relações entre o Partido Comunista da China e o aparelho de Estado. O que é normal: ninguém acredita que Biden tenha algum dia lido o Livro Vermelho, de Mao tsé-Tung.
A Casa Branca disse, citada pelas mesmas fontes, que Biden levantou questões em relação às quais Washington tem preocupações, incluindo cidadãos norte-americanos detidos na China, direitos humanos em Xinjiang, o Tibete, Hong Kong e Taiwan e as atividades militares agressivas no Mar da China. “Só conversando e sendo contundentes uns com os outros para que não haja mal-entendidos” é que se encontram soluções, disse Biden.
Recorde-se que as forças armadas dos Estados Unidos e da China tiveram uma série encontros imediatos que por pouco não redundaram em confronto direto e as conversações serviram também para acautelar possíveis acidentes no futuro. Que é como quem diz ‘antes de disparar, telefone’.
Produção de fármacos pouco próprios e inteligência artificial foram temas, entre outros, que também estiveram sobre a mesa. Mas Taiwan acabou por ser o centro das conversas. Nenhum dos dois mudou o seu posicionamento – Biden diz que os Estados Unidos defenderão a democracia na ilha e a China diz que o território faz parte do país. Mas mudou a atitude: os argumentos foram debatidos ao mais alto nível.
Biden disse que enfatizou a necessidade de paz e estabilidade no Estreito de Taiwan e afirmou que manter o estatuto da ilha é uma prioridade. Xi Jinping disse que “a paz está bem, mas em algum momento precisamos de avançar para uma resolução mais geral”. O presidente chinês também pediu aos Estados Unidos que parem de enviar armas para Taiwan e apoiem a “reunificação” pacífica.
Biden recebeu o líder chinês na propriedade de Filoli, uma casa de campo a cerca de 50 km ao sul de São Francisco, onde mais tarde teve lugar a cimeira da APEC.
Uma certeza e uma incógnita resultam do encontro de ambos: a certeza é que Europa não conta para nada no principal palco do mundo; e a incógnita é o que fará a Casa Branca de tudo isto se o seu próximo inquilino se chamar Donald Trump.