Marco Rocco, Investigador na Universidade de Pádua e Eleonora Zampieri, Investigadora na Universidade de Pádua

Ecos de Roma no ruído político do presente

Estratégias baseadas na exploração do medo ou do ressentimento não são uma invenção moderna. Já os romanos dominavam a arte de manipular as emoções como parte da governação.

Vivemos tempos em que a política parece ser movida pela emoção: medo, raiva, esperança e ressentimento marcam discursos, polarizam sociedades e mobilizam eleitores. Este fenómeno pode parecer novo, mas não o é. Na Roma Antiga, as emoções eram um elemento central da vida política. Não um acaso, mas uma estratégia – um reflexo conturbador da atualidade.

A política romana estava longe de ser um espaço puramente racional. As emoções eram deliberadamente exploradas para conquistar apoio, silenciar opositores ou reforçar a autoridade. A violência não era apenas um subproduto do conflito político, mas, muitas vezes, uma ferramenta com objetivos claros: aterrorizar, controlar e manipular perceções. Leis que puniam quem ajudasse os proscritos institucionalizavam o medo, convertendo-o numa emoção pública e funcional. Ainda assim, nem sempre o medo cumpria os seus propósitos. Afinal, mesmo os regimes mais brutais enfrentavam limites na eficácia da intimidação.

Também nas eleições, as emoções desempenhavam um papel decisivo. O medo da derrota – denominada repulsa – exercia uma poderosa influência sobre as ações dos candidatos. Esse medo impulsionava-os a agir contra os seus oponentes, tudo para garantir a tão almejada vitória. Candidatos e eleitores navegavam um campo emocional intenso, em que a gestão dos afetos podia ditar vitórias e derrotas. Fora do contexto eleitoral, os líderes observavam atentamente as reações das multidões nos espetáculos públicos, onde o aplauso ou a vaia funcionavam como termómetro da opinião coletiva e, por vezes, como aviso político.

Mesmo em tempos de paz, o medo continuava a ser cultivado como mecanismo de dominação. A célebre máxima “Oderint dum metuant” – “que odeiem, desde que temam” – resume bem esta lógica de poder: a autoridade não dependia da simpatia, mas da submissão. Governar através do temor era não só aceite, mas considerado eficaz. O medo tornava-se um instrumento político legítimo, reforçado por mensagens oficiais e por uma retórica que mitificava a ordem e diabolizava o caos. Até a poesia de louvor servia, muitas vezes, para cristalizar este clima emocional, utilizando o medo como valor cívico e como sinal de liderança forte.

Tudo isto ecoa no presente. Estratégias baseadas na exploração do medo ou do ressentimento não são uma invenção moderna. Já os romanos dominavam a arte de manipular as emoções como parte da governação. E essa consciência histórica pode tornar-nos cidadãos mais atentos e recetores mais críticos das mensagens políticas.

Longe de serem relíquias irrelevantes, os Estudos Clássicos e Humanísticos – nos quais se insere a Roma Antiga –, oferecem uma compreensão fundamental da natureza humana, da sociedade e das dinâmicas de poder que continuam a ser pertinentes. Fornecem contexto, perspetiva e pensamento crítico – competências essenciais para navegar na complexidade do século XXI. É um lembrete poderoso de que o coração humano da política continua a bater com os mesmos ritmos antigos. E que, ao compreendermos esses ritmos, talvez possamos estar mais bem preparados para construir um futuro mais racional e menos emocionalmente volátil.

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