Carolina Afonso, Professora Universitária ISEG

Economia de dados: o que falha?

A promessa da economia dos dados não falha por limitações tecnológicas. Falha porque muitas organizações não fizeram a transformação mais difícil, a transformação da decisão.

A economia dos dados tornou-se um dos conceitos mais repetidos no discurso empresarial da última década. Investiu-se em sistemas de informação, plataformas de “business intelligence”, equipas de “analytics” e, mais recentemente, em soluções de inteligência artificial. No entanto, apesar deste esforço significativo, os ganhos de produtividade permanecem modestos e a perceção generalizada entre gestores é a de que o retorno do investimento em dados fica aquém do prometido. O problema não está na falta de dados, mas sim, na incapacidade de decidir com eles.

As organizações nunca tiveram acesso a tanta informação. Dados sobre clientes, operações, mercados e colaboradores são recolhidos de forma contínua e cada vez mais sofisticada. Ainda assim, muitas decisões críticas continuam a ser tomadas com base na intuição do decisor mais sénior, em hábitos enraizados ou em pressões de curto prazo. Os dados são consultados, apresentados em dashboards e relatórios, mas raramente determinam escolhas estratégicas. Tornaram-se um “elemento decorativo” do processo de decisão, não o seu motor.

Esta desconexão tem raízes profundas na forma como as empresas estão organizadas. Em muitas estruturas, não existe clareza sobre que decisões devem ser suportadas por dados, quem é responsável por as tomar e quais as consequências de ignorar a evidência disponível. Produzem-se análises sem destinatário claro e acumulam-se indicadores que ninguém sente como seus. Quando tudo é medido, nada é verdadeiramente relevante. A abundância de informação acaba por gerar paralisia ou, pior ainda, justificação retrospetiva de decisões já tomadas.

O paradoxo é que esta realidade não resulta de falta de competência técnica. Portugal tem profissionais qualificados em análise de dados e tecnologia, formados num contexto alinhado com as melhores práticas internacionais. Estudos comparativos da OCDE mostram que o problema não está na capacidade de produzir dados, mas na sua integração nos modelos de gestão. Sem alterar a forma como se decide, investir em mais tecnologia apenas aumenta a complexidade organizacional.

A cultura de decisão continua a ser um obstáculo central. Em muitas empresas, os dados são vistos como uma ameaça à autoridade hierárquica ou como um risco político interno. Aceitar que a evidência contraria uma decisão implica expor fragilidades e assumir custos reputacionais. É mais seguro ignorar a análise ou questionar a sua validade do que mudar de rumo. Assim, os dados passam a servir para validar escolhas, não para as orientar.

As implicações económicas desta falha são significativas. A má utilização dos dados contribui para uma alocação ineficiente de recursos, decisões de investimento subótimas e incapacidade de antecipar mudanças no mercado. Num contexto de concorrência crescente e margens pressionadas, esta ineficiência traduz-se em perda de competitividade. No espaço económico da União Europeia, onde empresas operam com regras semelhantes, mas níveis distintos de maturidade de gestão, decidir melhor torna-se uma vantagem estrutural.

A promessa da economia dos dados não falha por limitações tecnológicas. Falha porque muitas organizações não fizeram a transformação mais difícil, a transformação da decisão. Enquanto os dados não tiverem um papel vinculativo nos processos de gestão, com responsabilidades claras e impacto real, continuarão a ser um custo e não um ativo. A verdadeira economia dos dados começa quando decidir com evidência deixa de ser uma opção e passa a ser uma exigência.

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