João Gonçalves Pereira, Administrador de Empresas

Dados, soberania e poder: a nova geopolítica do século XXI

Soberania dos dados não significa isolamento tecnológico. Significa capacidade de decisão autónoma, resiliência face a dependências externas, e um modelo de governação que sirva os interesses nacionais e europeus.

Durante décadas, o poder dos Estados foi medido em território, recursos naturais e capacidade militar. Hoje, há um novo ativo no centro das disputas globais: os dados. Quem controla os dados controla infraestruturas críticas, cadeias de decisão e, em última análise, a capacidade de agir com autonomia num mundo cada vez mais digitalizado.

A soberania dos dados não é um conceito técnico reservado a especialistas em cibersegurança. É uma questão política, económica e estratégica, com implicações diretas para os Governos, para as empresas e para os cidadãos. E a Europa, em particular, tem demorado a perceber a urgência desta realidade.

Quando uma entidade pública armazena informação sensível em servidores localizados fora da sua jurisdição, ou sujeitos a legislação estrangeira, perde o controlo efetivo sobre essa informação. Não se trata apenas de um risco de privacidade. Trata-se de exposição a decisões regulatórias de outros países, a pedidos de acesso por parte de autoridades estrangeiras, e a vulnerabilidades que podem ser exploradas em momentos de tensão geopolítica.

Dois exemplos tornam esta realidade concreta. O CLOUD Act americano, aprovado em 2018, permite às autoridades dos Estados Unidos aceder a dados armazenados por empresas americanas, independentemente do país onde esses dados se encontrem fisicamente. Do outro lado do espectro geopolítico, a legislação chinesa de cibersegurança e de inteligência nacional obriga as empresas com operações na China a cooperar com os serviços de informações do Estado, incluindo no acesso a dados de utilizadores estrangeiros.

Uma empresa europeia que utilize infraestruturas tecnológicas com ligações a qualquer um destes universos jurídicos pode estar a expor informação sensível sem sequer ter consciência disso. Não é uma crítica ideológica a parceiros geopolíticos concretos. É uma constatação objetiva de que a dependência tecnológica tem custos reais, e que esses custos só se tornam visíveis quando já é tarde para os evitar.

Apesar dos riscos associados à dependência, seria um erro recusar a cloud como solução. O problema não está na tecnologia, está na ausência de soberania sobre ela. A computação em nuvem representa uma das maiores transformações na forma como os dados são tratados, processados e partilhados. Para as empresas, oferece escalabilidade, eficiência operacional e acesso a capacidades que seriam impossíveis de replicar internamente. Para os Estados, pode representar uma infraestrutura moderna e resiliente, capaz de suportar serviços públicos digitais de qualidade. A questão central é: em que cloud, com que garantias, e sob que lei?

A União Europeia respondeu parcialmente a esta pergunta com o GAIA-X, uma iniciativa que procura criar um ecossistema de cloud europeu baseado em normas de interoperabilidade, transparência e soberania. Em Portugal, a Estratégia Nacional de Nuvem aponta na direção certa, mas a velocidade de implementação precisa de acelerar e o envolvimento das PME ainda é insuficiente.

Para as empresas, a soberania dos dados é também uma questão de competitividade e de gestão do risco. Com o Regulamento Geral de Proteção de Dados em vigor e com a crescente atenção regulatória sobre transferências internacionais, as organizações que não têm clareza sobre onde os seus dados estão e quem pode aceder-lhes enfrentam riscos legais concretos. Mas há igualmente uma dimensão de vantagem: as empresas que adotam soluções de cloud certificadas e que integram a soberania dos dados na sua estratégia constroem uma posição de confiança diferenciadora junto de clientes, parceiros e investidores.

Estamos num momento de redefinição das regras do jogo digital global. Soberania dos dados não significa isolamento tecnológico. Significa capacidade de decisão autónoma, resiliência face a dependências externas, e um modelo de governação que sirva os interesses nacionais e europeus. Para os Estados, é uma questão de segurança. Para as empresas, é uma questão de futuro. E para os cidadãos, é uma questão de direitos. A cloud é o presente e o futuro da infraestrutura digital. A soberania sobre ela é o que separa quem decide de quem é decidido.

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