Rui Ribeiro, Diretor Executivo Lusofona Executive School e Associate Partner da Zertive

Comunicação e a “espécie Informático”

Acima de tudo, a “espécie Informático” tem de saber comunicar ao serviço da empresa, dado que é uma das bases fundamentais para a garantia da competitividade de uma empresa.

Um dos principais problemas das empresas é garantir que as lideranças sabem comunicar com as suas equipas e que estas também comunicam entre si. É um fenómeno complexo, que se bem feito pode criar forte coesão e crescimento, mas se mal realizado, ou mesmo não implementado, pode destruir por completo uma organização.

Este dilema comunicacional inicia-se de facto no topo da organização, tendo por primazia a sistematização da implementação estratégica definida. É totalmente assumido que nem todos os colaboradores conseguirão percecionar a mensagem passada, por vários fatores, mas é essencial garantir que existe um plano e uma política de comunicação capazes de alavancar a médio prazo uma cultura fundamental à sustentabilidade da empresa.

Contudo, há uma área da empresa onde as dificuldades de comunicação interna e externa são intrínsecas, por defeito do seu ADN: a unidade informática ou tecnológica.

Nem todas as pessoas têm o dom da palavra, nem necessitam de o ter, mas as competências sociais são hoje claramente um fator decisivo no sucesso empresarial. Recordemos que a Informática é uma ciência com pouco mais de 50 anos nas organizações e que, tradicionalmente, os informáticos eram aqueles que estavam nos pisos inferiores do escritório, tinham um aspeto estranho e não falavam, apenas murmuravam coisas essencialmente ininteligíveis. Durante anos, este era o estereótipo da “espécie Informático”.

Alguns exemplos de características da “espécie Informático” são fáceis de reconhecer: medo de perguntar, interpretando à sua maneira o que está escrito num requisito que não entendem; achar que o utilizador não sabe como se faz o processo; considerar que o utilizador é o culpado pela aplicação “rebentar” porque não carregou no botão que devia; considerar que tem todo o tempo do mundo para entregar a aplicação, dado querer entregar a aplicação perfeita e com todas as funcionalidades, mesmo que não sejam usadas pelo utilizador; quando lhe perguntam como está feito o algoritmo de cálculo, responde com umas palavras estranhas de “if-then-else” ou “incorporei a classe e instanciei”, entre muitas outras.

Contudo, o mundo mudou e muda cada vez mais rápido. O papel da “espécie Informático” deixou de ser de suporte à empresa para ser a base de qualquer estratégia de negócio, quer pelas eficiências que a tecnologia traz consigo, quer pela geração de novas oportunidades de negócio que se criam. Por esta razão, a “espécie Informático” tem, também ela, que evoluir, tal como a teoria da evolução das espécies que Charles Darwin preconiza.

Esta evolução começa na sua base de formação nas universidades ou nos cursos profissionais de tecnologia. É essencial que um informático saiba estar numa reunião, intervindo e planeando adequadamente a sua presença. É essencial que saiba negociar, entenda o negócio e demonstre como a tecnologia pode ajudar mais e melhor. Acima de tudo, a “espécie Informático” tem de saber comunicar ao serviço da empresa, dado que é uma das bases fundamentais para a garantia da competitividade de uma empresa.

Qualquer empresa necessitará do tradicional “informático”, altamente especializado e pouco social, pelas suas competências técnicas acima da média, mas serão cada vez mais raros e necessitam estar protegidos por esta evolução social, comunicacional e tradutora de negócio em tecnologia. A Transformação Digital tenderá a casar cada vez mais o mundo tecnológico com o mundo dos negócios. E só há negócio se houver comunicação!

‘Disclaimer’: formei-me em Engenharia Informática e de Computadores, sou diretor de uma Licenciatura em Informática de Gestão e de vários cursos de executivos e profissional em áreas tecnológicas há 25 anos.

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