China já domina comércio mundial e avançará mais com tarifas de Trump

China reforçou a liderança nas trocas multilaterais na primeira metade do ano, após o ‘Dia da Libertação’, com as tarifas de Trump que visaram quase todos os cantos do mundo.

China já domina comércio mundial e avançará mais com tarifas de Trump
FILE PHOTO: Chinese President Xi Jinping attends a welcoming ceremony for Greek President Prokopis Pavlopoulos outside the Great Hall of the People, in Beijing, China May 14, 2019. REUTERS/Jason Lee/File Photo

Os chineses superaram os norte-americanos como principais parceiros comerciais da maioria dos países. O Brasil não foi exceção e é já o terceiro maior destino de investimentos chineses no mundo e o número um fora da Europa. Em junho, após o ‘Dia da Libertação’, as trocas comerciais da China superaram em 93 mil milhões de dólares as dos EUA, atingindo os 537 mil milhões.

As tarifas dos EUA estão a contribuir para aumentar a hegemonia comercial global alcançada pela China em 2024. Desde o “Liberation Day”, fixado por Donald Trump para 2 de abril, a corrente comercial (exportações e importações) de bens norte-americana recuou em 2025, enquanto a presença chinesa nos mercados mundiais cresceu.

A participação no comércio global da China já superou a dos EUA. Uma das explicações económicas (porque também as há políticas) para se entender o que está por trás das tarifas impostas por Trump a praticamente todo o mundo é o défice comercial dos Estados Unidos face a inúmeros países. Mas, para vários analistas – e uma vez passado o primeiro embate – a medida pode reverter a sua própria função e aumentar ainda mais o poder comercial da China que, segundo dados oficiais, passou para o primeiro lugar mundial em termos de trocas multilaterais ainda em 2024.

A corrente comercial de bens norte-americanos recuou em 2025, enquanto a presença chinesa no mercado global cresceu. Também no primeiro semestre deste ano, a China movimentou movimentou 3,04 biliões de dólares, mais 1,7% face ao mesmo período do ano passado – com as trocas comerciais dos Estados Unidos a fixarem-se nos 2,92 biliões, o que representa um crescimento de 10,2%.

Os dados da US Census e da Administração Geral das Alfândegas da China– que apontam para uma maior taxa de crescimento dos Estados Unidos – têm uma explicação: resultam do esforço dos importadores norte-americanos em escaparem às taxas que a administração Trump anunciou. E como os anúncios foram substancialmente maiores que os, entretanto, concretizados, os agentes norte-americanos foram induzidos em erro (pelo seu próprio governo) e trataram de encher os armazéns. É, por isso, e segundo análise dos economistas, um crescimento extraordinário, que não representa a economia real e que tenderá a esvaziar nos próximos semestres.

China ganha vantagem desde o ‘Dia da Libertação’
Os primeiros sintomas já se podem notar. De janeiro a março, a corrente comercial dos EUA estava acima dos 530 mil milhões de dólares por mês. Mas em abril, após o ‘Dia da Libertação (com o vasto pacote de tarifas de Trump, que visou quase todos os cantos do mundo) este patamar ficou nos 469,5 mil milhões e em junho ficou-se nos 444 mil milhões de dólares, abaixo dos 537 mil milhões alcançados pela China.

A China conheceu, assim, o efeito contrário: embora o ritmo de crescimento na comparação semestral esteja inferior, a corrente comercial manteve-se estável e cresceu desde que a ameaça das tarifas entrou na perceção dos agentes económicos. Uma evolução que se reforçou em agosto, segundo os dados oficiais divulgados no início desta semana (ver texto ao lado).

O primeiro lugar da China nas trocas multilaterais ganha assim forma, após ter alcançado uma relevância comercial superior aos Estados Unidos em 2024. Isto depois de passar os 24 anos do novo milénio a crescer sete vezes mais que os norte-americanos no comércio internacional. Em 2000, o comércio dos EUA com outros países movimentava dois biliões de dólares, quatro vezes mais que a China – que era parceiro comercial privilegiado de apenas alguns países: Cuba, Irão, Líbia, Mianmar, Mongólia, Coreia do Norte, Omã, Sudão, Tanzânia e Vietname. Tudo isso é passado: a China passou a movimentar 6,16 biliões de dólares contra 5,3 biliões dos EUA, tornando-se o principal parceiro comercial de mais de 120 países, incluindo grandes economias como o Japão, Coreia do Sul, Alemanha e Brasil.

China é o principal parceiro comercial do Brasil
De acordo com o FMI, cerca de 70% dos países já comercializam mais com a China que com os EUA. O Brasil é um desses exemplos com as empresas chinesas a procurar expandir seus negócios no Brasil à medida que recuam dos EUA.

Diante da imposição das tarifas de Trump em produtos importados, o Brasil também procura diversificar suas exportações, e mira no fortalecimento da parceria comercial com a China. É já o terceiro maior destino de investimentos chineses no mundo e o número 1 fora da Europa com dezenas de projetos em diversos setores atraindo 4,2 mil milhões de dólares.

Um estudo do CEBC (Conselho Empresarial Brasil China), um centro de estudos, revela que o investimento direto chinês no Brasil aumento 113%, mais que dobrou em 2024 face a 2023, com empresas investindo tanto em projetos de energia quanto em novas áreas como carros elétricos. A parceria entre Brasil e China está a ganhar cada vez mais tração, estando a ser desenvolvidos 39 projetos com capital chinês em diversos setores.

Dados da ApexBrasil dão ainda conta de que a China é o principal parceiro comercial do Brasil, respondendo por 28% do valor total exportado e por 41,4% do superávite comercial do Brasil. Produtos como soja (33,4%), petróleo bruto (21,2%) e minério de ferro (21,1%) representaram 75,6% do total exportado pelos produtores brasileiros aos chineses.

‘Gap’ do PIB entre China e EUA
Para os economistas, a economia chinesa ainda deve crescer acima da média mundial, após o aumento robusto do PIB de 5,4% no primeiro semestre, com o seu mercado interno a ganhar relevância como motor de crescimento. Ao mesmo tempo em que as exportações enfrentarão mais barreiras à medida que outros países procuram proteger setores estratégicos.

Já a economia dos EUA deverá crescer 1,9% este ano (abaixo dos 2,8% de 2024), segundo o FMI, devido ao impacto em todas as economias da guerra tarifária desencadeada por Trump.

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