A Comissão Europeia fez marcha-atrás nas regras para os carros a combustão. Há apenas dois anos aprovou o fim dos carros térmicos a partir de 2035, mas esta terça-feira aprovou novas regras.
A partir dessa data, os fabricantes precisam de reduzir em 90% as emissões dos novos veículos, com os restantes 10% a serem compensados através de biocombustíveis ou combustíveis sintéticos, ou através do uso de aço de baixo carbono nos veículos produzido na UE.
Desta forma, os veículos híbridos plug-in, híbridos elétricos, extensores de autonomia ou veículos a combustão interna “ainda vão desempenhar um papel além de 2035”, em conjunto com os 100% elétricos e veículos a hidrogénio.
Os fabricantes de automóveis vão também ter direito a ‘super-créditos’ para os pequenos carros elétricos, mais baratos, produzidos na UE. “Isto vai incentivar a chegada ao mercado de mais carros elétricos pequenos”.
O pacote automóvel, no lado da oferta, revê assim as regras de CO2 para ligeiros e carrinhas; do lado da procura, propõe uma iniciativa para descarbonizar frotas de empresas com metas nacionais para veículos carbono zero ou baixas emissões.
“Inovação. Mobilidade limpa. Competitividade. Este ano, estas foram as nossas maiores prioridades nos nossos diálogos intensos com o setor automóvel, sociedade civil e partes interessadas E hoje, estamos a resolver todas. À medida que a tecnologia transforma rapidamente a mobilidade e a geopolítica altera a competição global, a Europa continua na frente da transição limpa global”, disse hoje a presidente Ursula von der Leyen.
Qualquer alteração terá de ser apoiada pelos países da UE e pelo Parlamento Europeu antes de ser aprovada.
As vendas de carros elétricos na UE dispararam 26% até outubro, pesando 16% nas vendas. A chegada de modelos mais baratos, tanto europeus como chineses, tem ajudado a este crescimento.
Os maiores fabricantes automóveis europeus, a par da Alemanha e da Itália, pressionaram Bruxelas para alterar a data. O chanceler alemão defendeu recentemente o fim deste cancelamento. “A realidade é que vão haver milhões de carros térmicos em todo o mundo em 2035, 2040 e 2050”, segundo Friedrich Merz.
Países como Espanha e França já mostraram o seu apoio ao fim dos motores térmicos, considerando que o futuro da indústria europeia vai ser “elétrico” e que a meta “não deve ser questionada”. Mas defenderam a criação de super-créditos, isto é, os componentes europeus contribuem para as metas.
A legislação data de 2023 quando foi aprovado que a partir de 2035 as vendas de carros e de carrinhas na UE teriam de ser livres de emissões.
“A Comissão Europeia vai avançar com uma proposta clara para abolir o fim dos motores a combustão. Foi um sério erro de política industrial”, disse recentemente o líder do Partido Popular Europeu, Manfred Weber.
À medida que as marcas chinesas de carros elétricos apertaram o cerco à indústria automóvel europeia, marcas como a Volkswagen e a Stellantis tentaram aliviar as metas.
A revolução elétrica tem sido dominada por marcas exteriores à UE, como a americana Tesla ou a chinesa BYD.
As marcas europeias tentam arrepiar caminho, mas a procura não está lá ainda. Preços mais caros, falta de autonomia, rede de carregamentos insuficiente, todos estes fatores pesam na hora de comprar um veículo elétricos.
A pressão europeia sobre os carros chineses, com a imposição de tarifas, só vieram complicar num momento em que as marcas chinesas oferecem preços competitivos: Bruxelas quer apostar na mobilidade elétrica, mas impede os europeus de terem acesso a modelos mais competitivos? A bota não batia com a perdigota.
Em março deste ano surgiu um sinal: a Comissão atrasou em 3 anos as metas previstas para 2025.
As marcas automóveis planeiam manter as vendas de carros a combustão com híbridos plug-in, equipados com biocombustíveis ou combustíveis sintéticos.
Mais. As marcas europeias têm argumentado que o ritmo da transição foi mais lento do que o esperado… e que os carros elétricos geram menos lucro face aos térmicos.
“O futuro é elétrico. Mas para chegar lá é preciso mais flexibilidade para garantir que se consegue entregar aos clientes o que realmente querem”, disse recentemente o presidente da marca Volkswagen Thomas Schafer.
“Recomendamos uma abordagem multi-tecnologia”, pois o motor a combustão “vai cá andar para o resto do século”, disse à “Reuters” Todd Anderson da companhia de sistemas de combustível para motores térmicos.
Mas há um reverso da medalha, o setor do carro elétrico tem vindo a desenvolver-se a velocidade cruzeiro e a decisão pode prejudicar o investimento nos próximos anos.
“Vai ter um efeito”, avisou Rick Wilmer da empresa de componentes para carregamentos ChargePoint.
Os fabricantes querem que a meta para 2030 de redução de emissões poluentes em 55% para automóveis seja alargada ao longo de vários anos.
A Alemanha defende que o uso de componentes de baixo carbono na produção do veículo seja contabilizado na hora de reduzir emissões.
Simone Tagliapietra do think-tank Bruegel considera que manter os carros térmicos seria um “grande erro para a Europa. Faria pouco para ajudar os fabricantes automóveis, pois a eletrificação é o futuro da indústria e colocaria em sério risco a reputação da Europa como um líder global no combate às alterações climáticas”, disse, citado pelo “FT”.
Já os ambientalistas defendem que as metas devem manter-se. “A Europa deve manter-se no rumo do elétrico que é claramente o futuro”, disse William Todts do grupo T&E.