Maquiavel escreveu que um bom governante tem de estar disposto a mentir sempre que tal for necessário para o bem do Estado. “Um príncipe sábio não pode nem deve manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhes traz prejuízo”, escreveu o filósofo que é tantas vezes incompreendido. Maquiavel estava a constatar um facto: todos os governantes mentem. E os bons devem mesmo estar dispostos a fazê-lo em determinadas circunstâncias.
Porém, nem todas as mentiras são aceitáveis num governante. Uma coisa é mentir para proteger o interesse do Estado, de forma a atender a um bem maior. Um governo que mente para manter a estabilidade do sistema bancário, por exemplo, está a defender o bem comum. Um ministro que falta à verdade para proteger a segurança do Estado e dos seus agentes, idem.
Outra coisa é mentir para esconder atos de incompetência ou má gestão. Nestes casos, a mentira não serve o bem comum. Serve apenas para ocultar responsabilidades e fazer com que tais atos voltem a repetir-se no futuro. Tais mentiras não são aceitáveis em nenhum governo.
Um governante que mente aos seus concidadãos, sem essas raras razões de Estado que o possam justificar, não merece desempenhar funções públicas. Seja na vida privada, seja na vida pública, o mentiroso é um ladrão que rouba às outras pessoas o direito a conhecerem a verdade, privando-as da possibilidade de escolherem de outra forma ou de seguirem por outro caminho. E este prejuízo que os mentirosos nos causam, sobretudo quando governam um país, pode ser colossal. Essa é, de resto, a grande verdade da mentira.