Filipe Morais, Professor de Governance & Reputation, Henley Business School, Reino Unido, e Partner na AMROP

A Ordem Mundial e a Desordem Nacional

No plano externo, somos campeões no apelo ao consenso, às posições conjuntas, à unidade europeia – raramente temos posição própria. Esta parece resumir‑se a apelar ao consenso e à unidade. No plano interno, assistimos à desordem nacional.

Desde a última eleição de Trump nos Estados Unidos, um pouco por todo o mundo se vai ouvindo que a velha ordem internacional baseada em regras desapareceu e que não irá voltar. O primeiro‑ministro canadiano, Mark Carney, defendeu no World Economic Forum, em Davos, uma visão em que os “poderes médios” se unem numa plataforma de valores partilhados, para servirem de contrapeso e fator estabilizador face à intensa rivalidade entre os grandes poderes mundiais, marcada por fortes tendências coercivas.

Segundo Carney, esta visão e alinhamento estratégico dos poderes médios são uma questão de “honestidade política” e de “responsabilidade moral”. Exigem que estes deixem de “viver numa mentira” (uma referência ao famoso ensaio de 1979, The Power of the Powerless, de Václav Havel) e abandonem o conformismo perante os ditames das superpotências, na esperança de obter estabilidade. Como afirmou Carney: “Num mundo de rivalidade entre grandes poderes, os países que estão no meio têm uma escolha: competir entre si para obter favores dos grandes poderes ou unirem‑se para criar uma terceira via com impacto”.

A posição do Canadá, coerente com esta visão, ficou demonstrada também no seu alinhamento diplomático limitado relativamente à atual guerra no Irão. A posição de Portugal também ficou clara: preferimos continuar a viver dentro de uma mentira. A política externa portuguesa continua simples: encostar‑se à Europa e aos Estados Unidos. Defendemos as Nações Unidas e António Guterres, apelamos a que a Europa se una em torno do relatório Draghi, mas também apoiamos Trump e as suas constantes ruturas com a ordem internacional; toleramos a coerção de aliados e o desrespeito pelas regras — na expectativa de que o favor se mantenha, de que não precisemos de romper com o comforto do status quo.

Fazer escolhas difíceis exige coragem e responsabilidade moral, aliadas à inteligência estratégica e a uma liderança decisiva. Carney demonstrou que este equilíbrio é possível. Infelizmente, as lideranças políticas em Portugal – do governo às oposições – exibem um preocupante défice destas qualidades. E, por isso, decisões difíceis, tanto no plano externo como no interno, são adiadas ou tomadas pelas razões erradas.

No plano externo, somos campeões no apelo ao consenso, às posições conjuntas, à unidade europeia – raramente temos posição própria. A nossa posição parece resumir‑se a apelar ao consenso e à unidade. Entretanto, no plano interno, assistimos à desordem nacional. Não somos capazes de projetar uma visão para Portugal; andamos sempre à “cacetada”: na concertação social, no parlamento, na saúde, na educação, nos transportes. O país dos consensos no plano externo é o da luta intestina no plano interno.

Como explicar esta dualidade? Não podemos deixar de pensar nas elites. As elites são definidas como “grupos de pessoas que detêm uma quantidade desproporcionada de poder, influência ou recursos numa sociedade, em comparação com a pessoa média”. Teremos, entre as nossas elites, reservas suficientes de coragem e responsabilidade moral, inteligência estratégica e liderança decisiva para traçar uma visão e um caminho próprios para Portugal?

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